Image
Voltar ao topo
Exibir menu
8 de novembro de 2013

Por que você gosta tanto de vilões e anti-heróis e qual o sentido deles hoje?

Os vilões e anti-heróis são a bola da vez na cultura pop, definitivamente. Agora, você já se perguntou por que ama odiar alguns e odeia amar outros?

É fato que vilões não chocam tanto quanto antes e a imagem do anti-herói é cada vez mais aceita na sociedade, substituindo assim o antigo arquétipo de herói. Você já se perguntou por que estas figuras comumente protagonizam obras inteiras hoje em dia? O que explica a atração fatal exercida por elas sobre nós? Será que é errado gostar desses malfeitores por mais hediondos que sejam seus atos?

O filme The Bling Ring (2013), o último de Sofia Coppola, é recheado de assuntos cabeludos e interessantes que eu poderia abordar aqui, alguns até entraram para minha longa lista de temas-desejo. Mas, definitivamente, o que mais me chamou atenção é a frase que o personagem Marc (Israel Broussard) solta perto do fim, na qual afirma que “os americanos têm um fascínio doentio pelo estilo gângster, do tipo Bonnie & Clyde”. Generalizando, todos temos uma certa admiração por vilões e anti-heróis. É quase irracional. Parei pra pensar e na mesma hora consegui montar um top 10 pessoal de salafrários. Odiamos amar alguns, amamos odiar outros, e até nos identificamos com eles em diversas situações, por que não?

Darth Vader, Hannibal Lecter, Alex Delarge, Dexter Morgan e Nucky Thompson são alguns desses seres que arrebatam nossos corações com suas vidas multifacetadas e, algumas vezes, incompreendidas. A paixão é instantânea e caminha lado a lado com o desprezo.

E há uma explicação para isso, ou melhor, uma não, três.

A humanização da vilania

Figuras imperfeitas e sem qualquer vocação heroica, que realizam a justiça por razões egoístas e vingativas ou através de meios duvidosos, são os protagonistas da maioria das ótimas produções recentes. Este tipo de personagem é um recurso precioso numa boa narrativa audiovisual, porque aproxima ainda mais o espectador/leitor à trama. O efeito é provocado por intermédio da humanização proposital das causas e perfis dos vilões e anti-heróis, sugerindo situações, aspirações ou pensamentos que todos nós já passamos ou tivemos.

Para ilustrar melhor, peguemos Walter White, de Breaking Badeleito o anti-herói mais impressionante dos últimos 20 anos -, como exemplo. Walter se tornou um professor de química exemplar, ainda que isto não o fizesse realmente feliz, mas um homem precisa prover sua família; teve uma vida humilde e pacata, fez tudo o que a sociedade exige de um pai para, numa brincadeira de mau gosto do destino, ser diagnosticado com câncer terminal. E agora?
Por que você gosta tanto de vilões e anti-heróis e qual o sentido deles hoje
Ter uma bomba relógio sobre a cabeça faz o senhor White acordar quase de supetão, resultado da incerteza de logo ter de partir e deixar esposa e filho na sarjeta. Para garantir a estabilidade de sua família e custear a quimioterapia, ele passa a “cozinhar” metanfetamina, traçando um caminho de péssimas escolhas, as quais constatamos mais tarde serem reflexos de uma personalidade insatisfeita consigo mesma, insegura, orgulhosa e cheia de arrependimentos.

Eu não estou em perigo, eu sou o perigo.”

Walter embarca então numa metamorfose motivada pelo desespero. Diante dos nossos olhos, o bom vizinho se transforma em um chefão do tráfico de drogas, capaz de passar por cima de qualquer coisa para alcançar seus objetivos. Como ele mesmo se define num ataque de deslumbre súbito: “eu não estou em perigo, eu sou o perigo”. E como culpá-lo, uma vez que as ações iniciais eram nobres? Além disso, tantas vezes nos pegamos querendo jogar tudo para o alto, desejando que nossas vidas fossem diferentes ou que nos reconhecessem por algo que realmente sabemos fazer. Este é um das dezenas de exemplos geniais que temos no mundo do entretenimento.

Se você curtiu este artigo até aqui, então deixe seu e-mail abaixo para receber novidades do CULT POP SHOW na sua caixa de entrada, além de conteúdo exclusivo para assinantes. É grátis e NÃO enviamos spam!

/Fique atualizado! Experimente nossa newsletter semanal.

A relação entre o encanto por bad guys e a psicologia

Em 1899, Sigmund Freud, de espertinho que era, esclareceu muito bem o fascínio por sujeitos malvados com a sua 2ª Tópica do Aparelho Psíquico, ainda que a motivação de seu estudo não fosse especificamente essa. Segundo o criador da Psicanálise, a nossa psique é dividida em três instâncias que interagem entre si: o id, o ego e o superego.

Sigmund Freud: Superego, Ego e Id

O id corresponde ao puro instinto, à impulsividade, à satisfação pessoal ou solução do problema. Desconhece completamente os limites ou a lógica, se isentando de responsabilidade e altruísmo. Já o superego vai contra isso, representa os pensamentos éticos e morais internalizados, a recompensa social em seguir regras. Os objetivos principais são inibir impulsos, forçar comportamentos aceitos pela sociedade e nos conduzir à ideia de perfeição, ainda que ela seja inalcançável. Enquanto o ego, basicamente é o que media estas duas instâncias, equilibrando o primitivo e o socialmente correto.

É claro que o equilíbrio é variável e adequado à cada pessoa, além de não permanecer o mesmo durante toda nossa vida, ou seja, há momentos em que o id se manifesta mais que o superego e vice-versa, fato que nos leva à nossa próxima pergunta: o que isso tem a ver com o tipo de personagem que gostamos? Absolutamente tudo!

A personagem é um artifício usado pela nossa mente para trazer instintos à tona de maneira admissível, funciona como uma válvula de escape. No caso dos vilões e anti-heróis, que cometem crimes terríveis e atos capciosos, eles seriam o espelho do nosso id em maior ou menor escala. Transformar impulsos rejeitados pelos bons costumes em uma personagem e não ser responsável por isso é o que causa o reconhecimento imediato.

Passamos a aliviar esses desejos irracionais reprimidos na ficção, afinal, ela está distante e não nos traz nenhum prejuízo e nem nos envergonha perante o mundo. E quando a ficção se encarrega de castigar ou levar esses bandidos à redenção, a ligação psíquica aumenta ainda mais, porque nos incita a crer que transgredir regras é o mesmo que sofrer. Temos o êxtase com as ações sórdidas do vilão (id), para logo entendermos que escolhas erradas podem trazer consequências pesadas no final (superego).

Uma prova concreta da expressão livre do id é a performance feita pela insana artista Marina Abramović, em 1974, chamada Rhythm 0. Ela permaneceu pelada exposta ao público durante 6 horas, rodeada por 72 tipos diferentes de objetos e armas que poderiam ser usados para agradá-la ou machucá-la. Os visitantes foram então convidados a participarem ativamente da performance, podendo escolher qualquer objeto disponível. A princípio, estavam apreensivos e confusos, mas rapidamente se tornaram violentos e cometeram algumas atrocidades com a performer. “A experiência foi horrível e aprendi que se você deixar a decisão para o público, você pode ser morta. Eu me senti muito violada e sob uma atmosfera agressiva. Um homem chegou até a apontar uma arma para minha cabeça”, observou Abramović.

Outra ideia que contribui perfeitamente para nossa afeição aos bad guys é que eles são muito mais atraentes e carismáticos que os mocinhos. São geralmente amparados por uma complexidade sem tamanho, tornando-os de longe mais interessantes e curiosos. A atmosfera sexy envolta dessas figuras se torna um elemento irresistível. Indo mais além, existe um elo incontestável entre o fascínio por vilões e anti-heróis e a história do homem. Não à toa, Freud institui a 2ª Teoria das Pulsões em 1920, logo após a Primeira Guerra Mundial, para tentar explicar a origem da agressividade humana. Esta é a terceira peça do nosso quebra-cabeça.

Séculos de desgraças refletidos numa geração pós-moderna

Numa rápida análise na história da humanidade, é possível perceber um enorme rastro de destruição. Inegavelmente, os séculos 20 e 21 são os principais responsáveis pela maneira como nos comportamos, vivemos e pensamos hoje em dia. O período entre 1900 e o ano presente foi marcado por uma série de eventos significativos e catastróficos, rendendo ao século 20 os carinhosos apelidos “século sangrento” e “era dos extremos“. Você pode não acreditar, mas alguns desses episódios são fatores consideráveis na nossa simpatia pelos vilões e anti-heróis.

Assassinatos em massa, grandes crimes e escândalos, desastres, tragédias naturais, avanços tecnológicos e instauração da era digital, expressivos movimentos de contracultura, notáveis invenções, nascimento do capitalismo, guerras e diferenças ideológicas são alguns acontecimentos que permearam a trajetória do homem até aqui. Vimos o mundo virar de cabeça pra baixo, num intenso processo de transformações drásticas.

Hiroshima devastada pela explosão atômica

Hiroshima devastada pela explosão atômica

De encontro ao nosso propósito, a Segunda Guerra Mundial é o que podemos considerar o pico do século 20, catapulta para o espantoso ataque atômico às cidades de Hiroshima e Nagasaki pelos EUA, dividindo a nossa história num claro antes e depois, sem dúvidas. De lá pra cá, viramos metamorfoses ambulantes, indo de pessoas pouco questionadoras à revolucionárias. Uma sociedade inteira baseada em novos hábitos e vícios (bons e ruins), no consumo desenfreado de produtos descartáveis e na banalização da privacidade e tantas outras coisas. Para completar, no século seguinte (o 21), presenciamos milhares de vidas serem arrancadas de maneira inesperada com o ataque às Torres Gêmeas, algo que abalou estruturas políticas e sociais.

Não me leve a mal, tivemos um crescimento imensurável enquanto raça humana, mas aprendemos que somos capazes de qualquer coisa, desde algo que parecia impossível, como a exploração do espaço, até a atos tristes e surreais, como o Holocausto. Um sentimento absoluto de imperfeição está impregnado nas nossas mentes, o que explica a nossa preferência por vilões e anti-heróis. Se o herói é a certeza, o anti-herói é a dúvida (e nós também) logo está aí o ponto chave da identificação. A perfeição foi posta de lado e entramos num tempo em que os conceitos de bem e mal são relativos e adaptáveis.

Fomos criados na dura realidade de que tudo é possível, justificativa direta do motivo de ficarmos menos abismados com mortes abruptas de protagonistas, ainda que sejam bonzinhos. Aceitamos com mais facilidade mudanças violentas de roteiros, o que não implica na comoção pública, pelo contrário, é justamente isso a tonicidade dos contos contemporâneos. Neste contexto, faz muito sentido se interessar mais pelos vilões e anti-heróis do que pelos heróis. Eles estão, definitivamente, na moda!

No fim, estranho é não se identificar.

PS: Obrigado Camila Berteli por nos esclarecer melhor os estudos de Freud e a questão psicológica quanto ao nosso gosto por vilões e anti-heróis. Sua contribuição é inestimável.

/ Gostou deste post? Então experimente nossa newsletter semanal. Assine nossa newsletter.

/

Criador do @cultpopshow, amante de cultura pop e boas conversas. Faminto por novas ideias e fascinado pela história da juventude. Ama ler, escrever, ouvir músicas e assistir a séries de TV.

  • Neonico

    Texto muito foda, internet precisa de mais conteúdo assim. Parabéns Cult Pop! :D
    Virei fã em uma lida.

    • Danilo Novais

      Obrigado, Teo. Fico feliz que tenha gostado :D

  • Lucas Soares

    Há muito tempo venho pensando neste assunto, que inclusive foi tema da minha monografia na faculdade e um artigo que será em breve publicado pela revista Anagrama, da PUC-SP. A vilania ou o antiheroi são temas que hoje não só traduzem com mais verossimilhança a realidade como pautam sentimentos reais, como os laços que criamos com personagens como Walter White ou Alex. Excelente artigo!

  • Pingback: Jukebox #1: Universo Paralelo - Cult Pop Show()

  • Samara Vasconcelos

    Ótimo texto. Parabéns! (:

  • Moises V

    Parabéns Danilo e Camila, raríssimas vezes li um artigo tão completo e referenciado como este.

  • Klaus C Merini

    Da visão de Jung, o anti-herói seria quando o indivíduo assume sua sombra. Usa seu lado mau para superar uma grande dificuldade, que é um arquétipo (a sombra) ligado diretamente ao arquétipo milenar do herói.

  • Andries Viljoen

    Qual a diferença do anti-herói para o vilão? A diferença é pouca. O anti-herói é um herói que não segue as regras, tem uma ideia própria de justiça, quer sempre solucionar os problemas por meios extremos, se importa com os inocentes e quem não segue os padrões dele, é considerado inimigo. Já o vilão é quase a mesma coisa, mas além de não se importar com os demais, e claro, está do lado do mau.Não quer saber de mais nada a não ser seguir seus objetivos. Um bom exemplo de anti herói é o Justiceiro, e de vilão o Coringa.
    São meus 2 favoritos, uma boa diferença entre eles é que o Justiceiro mata para proteger os inocentes, e o Coringa mata por pura diversão.

/CultPopShow © 2008-2014. Todos os direitos reservados.   |   Agência WCK