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4 de agosto de 2014

Vai um novo homem aí?

Quase que semanalmente vemos anúncios pela internet e revistas do surgimento de um novo homem, mas dá pra ter tantos assim?

Vai um novo homem aí?

Quem tem um pouco mais de vinte anos deve se lembrar de como eram as propagandas de produtos que, preferencialmente, eram destinados ao público masculino. Cigarros, bebidas alcoólicas, relógios ou carros – até então, a esmagadora maioria desses produtos eram para homens. É só olhar, por exemplo, as propagandas da Marlboro e o famoso cowboy, símbolo da virilidade masculina desde os anos 50.

Ainda que tivessem alguns pontos fora da curva que começaram a empurrar as barreiras que a sociedade e a mídia impunham para os homens – como David Bowie, por exemplo [clique para ler] –, poucos fugiam do estilo proposto. Mas esse cenário mudou logo no começo dos anos 2000, com o início da era digital, um “novo homem” surgiu. Ou pelo menos foi a que a mídia fez com que o público acreditasse.

Espelho, espelho meu, quem é mais vaidoso do que eu?

Foi ainda nos primeiros anos do século XXI que os homens passaram a se preocupar mais com sua estética, ficando horas em frente ao espelho e em clínicas de beleza. E gastando uma boa quantidade de dinheiro com roupas das grifes conhecidas.

Para definir este homem extremamente preocupado com sua estética, o jornalista inglês Mark Simpson cunhou o termo metrossexual. A palavra surgiu em um artigo publicado por Simpson em 1994, mas só fez barulho mesmo em 2002, quando ele publicou outro texto usando David Beckham como representante máximo dos metrossexuais. O resultado? O termo foi eleito pela sociedade dialética americana como a palavra de 2003 e, desde então, nunca mais saiu das publicações direcionadas para o público masculino.

“Porque eu sou é macho”

E com o estilo vaidoso em evidência, as questões de gênero começaram a surgir. Os que não se identificavam com a vaidade, o desejo por roupas de grife e tratamentos estéticos, começaram a usar em sua defesa que essa história toda era “coisa de bicha”. O próprio Mark Simpson, em seu artigo para o Salon.com, disse que “ele se veste bem, ele é narcisista e obcecado por bundas, mas não o chame de gay”. O que fica claro nesse momento é que o homem está passando por uma completa metamorfose, alterando o modo como vê e lida com a sociedade, além de como ele se vê e lida consigo mesmo.

Segundo especialistas, os fatores que causaram essa mudança no comportamento do homem são diversos. Do aumento do poder das mulheres na sociedade à convergência da cultura hétero e homossexual, incluindo as mudanças comportamentais em relação ao consumo.

David Beckham

As mulheres têm parte nisto?

O surgimento dos movimentos a favor da liberação feminina nos anos 60 e o aumento do poder da mulher na sociedade nos anos posteriores fizeram com que o papel do homem também fosse modificado.

As mulheres passaram a votar, a ocupar cargos de liderança no mercado, a serem independentes e provedoras de seus próprios lares. Passaram a exigir mais delicadeza e atenção de seus parceiros, além de igualdade na rua e na cama. E isto fez com que os homens tivessem que correr atrás e alternar de macho-provedor-viril para uma postura mais agradável e atenta a figura feminina.

Se as mulheres saíram de dentro de suas casas e dos salões para ocupar cargos de liderança e conquistar mais independência financeira, os homens parecem ter feito um caminho inverso, muitas vezes saindo da responsabilidade de provedor para cuidar do lar ou formar filas nos centros de tratamento estético.

Crise de identidade

Porém, esse fluxo não é tão simples e facilmente efetuado. Quando se quebra o padrão do que é papel masculino e feminino, do que é fêmea e macho, quando as barreiras do gênero se misturam, abre-se um leque infinito de possibilidades que muitas vezes podem confundir aqueles que fazem parte do movimento.

No caso dos homens, essa inversão acabou colocando muitos deles contra a parede. Segundo Antônio Carlos Alves de Araújo, psicólogo e terapeuta de casais há 25 anos, “eles não sabem o que fazer, têm medos e receios, não foram criados para isso e é justamente o que a gente tem que mudar”, diz sobre como os homens não sabem lidar com os novos desafios que a sociedade apresenta para eles.

Ainda hoje, meninos são educados desde pequenos a adotarem uma postura de macho dominante, a brincar apenas com “brinquedos de menino”, a controlar as mulheres e a repudiar qualquer posicionamento que saia desta linha. E este mesmo menino, que cresceu com valores que na sociedade atual são considerados arcaicos, enfrenta uma crise de identidade perante a qual ele foi criado e como o mundo espera que ele se comporte.

Oferta e procura

Talvez seja esse conflito de identidades que ajude na criação de tantos termos para definir um novo homem a cada semana. Além do metrossexual, nos últimos 12 anos surgiram também os retrossexuais, übersexuais, tecnossexuais, neossexuais, e os yummy (uma sigla para Young Urban Male). O próprio Mark Simpson criou recentemente um termo que, para ele, define o próximo estágio evolutivo do metrossexual, o spornsexual. Um homem que não está preocupado apenas com a aparência, mas principalmente, com seu corpo.

Contudo, todos esses termos realmente identificam novos homens ou são criados apenas para deixar a pauta fresca para as páginas de revistas e anúncios publicitários e/ou manter o consumo aquecido?

Os números da indústria falam por si só. Segundo dados do IBGE [clique para ler], o brasileiro gasta mais de R$ 15,4 bilhões por ano com produtos de beleza. Mundialmente, entre 2006 e 2011, o consumo de produtos de higiene e beleza masculinos cresceu 163%, atingindo US$ 4 bilhões. Ainda no Brasil, a revista GQ atingiu 51% do share de publicidade entre as revistas masculinas. Como já é de costume hoje, nada é por acaso.

E você, o que acha? Acredita nesse “novo homem” ou acha que é tudo invenção para vender mais?

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Acha que escuta e enxerga o que está ao seu redor de um jeito diferente que a maioria das pessoas. Ama moda, gosta muito de música e adora divagar sobre as possíveis conexões que essas coisas têm com o resto do mundo. E faz uma lasanha deliciosa.

  • http://twitter.com/joaopauloteco João Paulo

    Acho que a maioria das coisas sempre estiveram ali, o que mudou foi o espaço e a coragem para apresenta-las no mundo lá fora. Para mim o termo “novo homem” que, como você disse, é constantemente usado nos meios de comunicação, é algo para despertar o interesse constante no mercado que abrange esse universo, já que tudo que é novo causa curiosidade (seja com reações positivas ou negativas).

    Isso tudo não muda o fato de que o “novo homem” exista, mas não acredito que seja da maneira que a mídia grita por aí. O novo homem, a nova mulher, a nova sociedade… Aspectos da evolução.

    • Danilo Novais

      Concordo plenamente com você, João!

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