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14 de agosto de 2014

Um filme incrível sobre expectativas e padrões sociais que você precisa assistir

Gran Torino é um filme que nunca fica velho, porque traz uma questão relevante: viver segundo àquilo que se deseja ou seguir aquilo que a maioria vive? Aqui uma conversa sobre padrões sociais e expectativas não correspondidas.

É inegável que uma parte dos comportamentos sociais a que estamos submetidos só existe por conta de estarmos obrigados, por uma força invisível, a seguir alguns padrões pré-estabelecidos. É um paradoxo: viver segundo àquilo que se deseja ou seguir aquilo que a maioria vive? Com o filme Gran Torino (2008) – estrelado, produzido e dirigido por Clint Eastwood –, é possível encontrar respaldo nisto. Sob diversas formas.

Quando sua esposa morre, Walt Kowalski (Clint Eastwood), um veterano de guerra, que segue a vida com o peso das mortes que fizera no campo de batalha, fica à mercê de si próprio e da falta de vontade dos seus dois filhos. E não é pra menos: com eles, nunca tivera uma relação de pai e filho. Walt nunca fizera questão de seguir este protocolo social, e ser um paizão e conhecedor profundo da vida de seus filhos. E, na verdade, o jogo era recíproco.

As relações entre pais e filhos são temas de diversas análises comportamentais e se transformam em pano de fundo para a produção de diversas obras literárias e cinematográficas. Contudo, é deste tipo de relação social que faço menção: não é porque algo é inevitavelmente esperado – como uma relação sadia entre reprodutores e sua prole – que deva ser forçado ao ponto de uma relação profunda e instável ser preferida no lugar daquela rasa mas saudável. E com Walt é assim. Apesar de partilharem genes e sangue, o relacionamento entre seus filhos, noras e netos é o pior possível. Não há diálogo e há ressentimento, por todos os lados.

No filme, Kowalski ganha vizinhos de porta descendentes do povo vietnamita Hmong. Walt é um racista convicto e, talvez, este seja um dos comportamentos que mais se discute durante todo o filme. Depois de uma série sucessiva de ações que levaram Thao (Bee Vang) a se aproximar do xenófobo, nasce uma bela amizade entre o garoto e ele, que acaba ganhando o pai que nunca teve. Depois de quebrada a barreira do preconceito, Kowalski demonstra que, na verdade, todo o estereótipo durão e a armadura pesada que carrega escondem uma figura simpática e divertida, mas que poucas vezes tivera oportunidade de ser apresentada aos outros. Talvez, pelo que podemos inferir da película, somente sua esposa tenha conhecido este lado.

Gran Torino

Quebrando o ciclo social-psicológico

As pessoas tratam umas às outras esperando que suas expectativas sejam correspondidas. No momento seguinte ao não-corresponder do que se espera, há julgamento. Há uma quebra da tradição. Pais amam seus filhos e vice-versa, mas e quando isso não acontece? O óbvio é fazer com que esta relação se conserte, mas e quando não há o que ser consertado?

Son of a bitch. I’ve got more in common with these goddamned gooks than my own spoiled-rotten family”.

Em Gran Torino, Walt reconhece, pensando em voz alta, que descobriu que tem muito mais em comum com os “puxadinhos”, apelidinho xenofóbico que ele usa para se referir aos Hmong, do que com os seus próprios familiares. E é uma das cenas em que o filme mais permite um diálogo sensível entre seu diretor-ator (Clint Eastwood) e nós, a audiência. Percebemos que, vez em quando, as amarras que acompanham alguém durante toda a vida são criadas por conta de um protocolo social, responsável também por criar uma infelicidade perpétua para aqueles que não tenham a coragem de sair daquele ciclo. Para aqueles que acham que o divórcio não é uma opção por conta do que os outros irão pensar. Para aqueles que acham que um filho gay é demérito ou um fardo. Para aqueles que não tem coragem de viver a própria vida.

Acima de tudo, Gran Torino fala de você, de mim, de nossas relações e de nossas alegrias e tristezas. É um filme redondinho, que nunca fica velho e jamais fica piegas.

Um outro filme que elucida bem a relação doentia que pode haver no relacionamento entre pai e filho – no caso, entre mãe e filho – é Precisamos Falar Sobre Kevin. Dirigido por Lynne Ramsay e estrelado por Tilda Swinton, o filme nos dá uma lição de que, por vezes, o tentar é inútil: aceitar que as relações, por mais que tenham uma base sólida, são fadadas ao fracasso desde a concepção. É triste. É lastimoso. Mas, é a realidade oferecida para alguns de nós.

Gran Torino está disponível na Netflix ou por aí.

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Goiano, casado, jornalista, apaixonado por cultura e concurseiro. Morou em Brasília, no Rio de Janeiro e atualmente mora em Goiânia. Gosta muito de debates, pois acredita que as discussões enriquecem a todos. Mais textos de Lucas no New Home.

  • Andries Viljoen

    “Gran Torino” é muito bom. Não é um filme elegante, muito menos sutil, mas faz um estudo importante sobre moralidade, violência, raiva, preconceito, culpa e a eficiência da filosofia “olho por olho”. E ainda sobra espaço para um pouco de comédia.
    Clint Eastwood merecia uma indicação ao Oscar de melhor ator no lugar de Brad Pitt

  • Andries Viljoen

    As pessoas a quem Walt chamava vizinhos faleceram ou mudaram-se, e foram substituídas pelos Hmongs, imigrantes do sudeste asiático, que ele despreza. Uma noite, alguém tenta roubar o seu Gran Torino de 1972: o seu vizinho adolescente Thao, pressionado por um gang de Hmongs. No entanto, Walt defende o rapaz, o que o torna o herói do bairro, especialmente para a mãe de Thao e a irmã mais velha, Sue, que insistem que Thao trabalhe para Walt como forma de se redimir. Inicialmente, Walt nada quer ter a ver com essas pessoas, mas algum tempo depios coloca Thao a trabalhar, o que origina uma amizade improvável que vai mudar as suas vidas. Através da bondade da família de Thao, Walt finalmente compreende algumas verdades sobre as pessoas que ele não considerava vizinhos. E sobre si mesmo. Essas pessoas têm mais em comum consigo, do que ele tem com a sua própria família…

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