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6 de março de 2014

Por que True Detective é a melhor coisa a acontecer com a TV desde a transmissão a cores?

Carregada de referências literárias e debates filosóficos, True Detective proporciona uma experiência única e tem tudo para ser a nova Breaking Bad. Aqui está o porquê.

Uma abertura gráfica e misteriosa ao som de “Far From Any Road”, do grupo country The Handsome Family. Dois atores indicados ao Oscar como protagonistas — Woody Harrelson e Matthew McConaughey. Valores de produção elevados, com destaque para a fotografia e a reconstrução da época. Criada por Nic Pizzolatto e transmitida desde janeiro pela HBO, True Detective logo de início desperta a atenção. Sua estrutura segue o formato antologia: a primeira temporada de apenas 8 episódios, será uma trama autocontida, com as temporadas subsequentes seguindo outras histórias e personagens. Isso permite que todos os episódios tenham o mesmo roteirista — o próprio criador Nic Pizzolatto — e diretor, Cary Joji Fukunaga. Não é à toa que True Detective tem gerado buzz e, antes mesmo do fim de uma temporada, já ser rotulada como uma das melhores séries de todos os tempos. Porém, não são apenas seus elementos mais evidentes que fazem o programa receber adjetivos hiperbólicos. Por trás de uma série de TV policial aparentemente comum, existe uma narrativa ambiciosa, interessada em filosofia, moral e a própria natureza humana.

A premissa da série é simples. Em 2012 dois ex-detetives do estado de Louisiana, Martin Hart (Harrelson) e Rustin Cohle (McConaughey) estão sendo interrogados a respeito de um crime que eles investigaram em 1995: um serial killer, indícios de rituais pagãos, um misterioso símbolo na forma de espiral. Ao longo dos episódios, as diferentes linhas do tempo vão se cruzando e perguntas vão surgindo: quem realmente foi o responsável pela série de assassinatos em 1995? O que aconteceu entre 1995 e 2012? Por que Cohle e Hart estão sendo interrogados? Algumas dessas perguntas já foram parcialmente respondidas, apenas para serem substituídas por novas.

Porém, apesar do título e gênero, True Detective está pouco interessada nos crimes em si, novas pistas e plot twists são apresentadas para logo depois serem deixadas em segundo plano. Mais importante aqui são os protagonistas e suas interações. Marty é um pai de família conservador que tem dificuldades no casamento. A atuação de Harrelson preza pela sutileza, onde apenas uma expressão facial pode revelar muito sobre o conteúdo de uma carta que está sendo lida — convencionalmente seria usado um voice over. Seu personagem transmite uma visão de mundo direta ao ponto, onde o certo e o errado são claramente delimitados. Todavia, por baixo dessa aparência de homem correto e moral, existe alguém extremamente inseguro, incapaz de lidar com um mundo que se recusa a ser preto no branco. Não só isso, mas fica claro que sua moral absoluta também não é tão absoluta e que as regras que ele aplica aos outros nem sempre se aplicam a si mesmo.

True Detective

“O homem é o animal mais cruel.”

Já Rust é um ex-policial de narcóticos que, marcado por uma tragédia pessoal, segue uma filosofia pessimista com tendência a monólogos filosóficos — se fosse para definir a atuação de McConaughey em uma palavra, essa seria intensidade. Enquanto Marty tenta obter algum sentido no caos que observa, Rust mergulha de vez nele. Não existe certo ou errado, apenas o mal. Mas assim como Hart, que se esconde atrás da moral, essa camada de niilismo serve para esconder alguém que sofre de uma carência emocional e sente o dever de fazer a coisa correta. E é Cohle quem mais se torna obcecado pelos crimes que estão investigando. Assim, ainda que o roteiro invista na caracterização de Marty e Rust como pessoas opostas, são as suas semelhanças que tornam a dinâmica ainda mais interessante.

True Detective

Além das próprias séries de TV policiais, a chave para entender True Detective são suas referências literárias. A ambientação e atmosfera trazem claros elementos do Gótico Sulista. Gênero marcante do século 20, o Gótico Sulista é caracterizado por personagens excêntricos e falhos, situações grotescas, cenários decadentes e temas relacionados à violência, racismo e pobreza: todos elementos presentes no seriado. Em entrevistas, Nic Pizzolatto reconhece a influência de autores de horror, noir e weird fiction como Laird Barron, Dashiell Hammett e Denis Johnson. A própria filosofia seguida por Cohle aponta diretamente para os trabalhos de Thomas Ligotti. Além disso, há referências proeminentes à coletânea de contos de terror “O Rei de Amarelo”, de Robert W. Chambers.

O título do livro, baseado numa peça teatral fictícia que induz desespero e loucura em seus leitores, influenciou uma geração de autores, incluindo H.P. Lovecraft. Não que True Detective atravesse literalmente a barreira do sobrenatural: mas assim como o crime investigado pelo personagens, é o que parece se mover por debaixo de todos os acontecimentos. Embora os personagens não experimentem diretamente o horror cósmico lovecraftiano, suas ações e reações não são diferentes de alguém que tivesse experimentado. É um recurso utilizado de maneira similar em “Moby Dick”, de Herman Melville, onde os personagens são encarnações de conceitos e elementos sobrenaturais de maneira simbólica e não literal. E, num mundo cheio de horrores, não existe sobrenatural que consiga competir com a realidade.

Ao longos dos episódios, testemunhamos diálogos a respeito de filosofia, religião, a essência do mal e o formato do tempo. São poucos os momentos bombásticos ou as frases de efeito. Tudo é desenvolvido no seu ritmo próprio, característica que pode incomodar espectadores desavisados. Mas Fukunaga demonstra segurança na direção e sabe usar a execução lenta para gerar tensão — e quando os acontecimentos finalmente explodem, é difícil tirar os olhos da tela.

Os diferentes níveis de interpretação e significados presentes formam um terreno fértil para especulações e teorias. Cada cena pode ser minuciosamente analisada e, assim como em Breaking Bad, espectadores mais atentos são recompensados com detalhes da trama que enriquecem todo o conjunto. É difícil apontar exatamente qual teoria é a correta, e se ater à apenas uma interpretação é negar a riqueza de conteúdo proposta. Mais do que oferecer respostas concretas, Nic Pizzolatto prefere deixar seus temas implícitos e ambíguos, deixando que o espectador tire suas próprias conclusões. Não seria nem surpreendente se a série terminasse sem que nenhum de seus crimes fossem de fato resolvidos.

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Gabriel Jacobi é um designer gráfico que gosta de livros, séries de TV e filmes.

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