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14 de junho de 2014

Transgressão de valores: o herói que não é mocinho

A televisão e o politicamente incorreto nunca estiveram tão próximos. Cada vez mais, vilões e anti-heróis protagonizam tramas e ganham o afeto da audiência, assumindo o lugar do herói. Entenda como as séries de TV provocam essa inversão de papéis e tornam atos subversivos em atos aceitáveis.

Um dos artifícios que o discurso das produções culturais hoje utiliza em seu favor é o politicamente incorreto. Neste sentido analítico é possível pensar, então, em transgressão de valores: o vilão visto como herói – e vice-versa –, além da própria inversão direta de valores – o assassino analisado sob outra ótica.

Tomando como exemplos as séries Weeds, Breaking Bad e Dexter, todas apresentam seus protagonistas como heróis subversivos: Nancy Botwin (Mary-Louise Parker em Weeds) é uma viúva que vive do tráfico de drogas; Walter White (Bryan Cranston em Breaking Bad) é um professor de química que descobre na produção de metanfetamina uma forma de deixar uma herança para a família; e Dexter Morgan (Michael C. Hall em Dexter) é um assassino em série que mata outros assassinos em série.

Nas três produções, mesmo deixando por um instante a ética e a moral de lado, é possível observar comportamentos subversores. Existe uma transgressão real de valores, com a quebra de leis federais, inclusive. Entretanto, cada um apresenta um atenuante para suas práticas: a primeira perdeu o marido e viu no negócio – inicialmente, apenas tráfico de maconha, mas chegando ao extremo de tráfico indireto de pessoas – o único sustento para a família. O segundo descobre uma doença terminal e quer deixar dinheiro para a família. O terceiro é um psicopata diagnosticado que, para saciar a necessidade de matar, “faz justiça com as próprias mãos” – devido a um “tratamento” que o pai adotivo desenvolvera com ele depois de identificar seu instinto assassino.

Ora, em nenhuma das justificativas faz-se plausível o enveredamento pelo lado subversivo. Contudo, no produto cultural, inserido no contexto da produção e no foco dela, o todo acaba ganhando um aspecto aceitável. Quando numa floresta selvagem, com uma vida animal bem diversificada, enxergamos uma cobra gigante engolir um indefeso roedor (uma materialização da feiura), podemos ficar receosos com a chocante imagem. No entanto, se analisarmos o panorama geral, de quão funcional é a cadeia alimentar daquele lugar e do quão necessária é cada parte desta cadeia para a manutenção do todo, conseguimos, analogicamente, identificar o papel fundamental que tem o feio. Este lado “subversivo” identificado nos personagens é uma forma de expressão do feio numa configuração moral.

Comportamentos subversivos como práticas morais negativas

Nas séries, cada uma à sua maneira, seja no tráfico de maconha, na produção e tráfico de metanfetamina ou na sequencial conduta assassina, os personagens principais (anti-heróis) produzem e reproduzem diversas práticas morais negativas. É possível inferir isto a partir do que ressalta Adolfo Sánchez (2005): “O emprego dos meios adequados não pode entender-se quando se trata de um ato moral – no sentido de que todos os meios sejam bons para alcançar um fim ou que o fim justifique os meios. Um fim elevado não justifica o uso dos meios mais baixos, como aqueles que levam a tratar os homens como coisas ou meros instrumentos”. (VÁSQUEZ, 2005, p. 78).

Weeds

Nancy Botwin, de Weeds

De acordo com o fim, os meios e a consciência (ou ausência dela) do ato é possível analisar, enfim, o comportamento moral de indivíduos reais (aqueles agentes de atos concretos). Quando, em Weeds, Nancy Botwin diz, de modo irônico-sarcástico, que ela é, na verdade, “apenas uma mãe que distribui produtos ilegais para manter o estilo de vida da família”, ela está, de uma forma ou de outra, maquiando sua realidade, embutindo num eufemismo o caráter negativo de seu ato moral. O fim, os meios para atingi-lo e a consciência que levou ao seu desfecho, qualificam o ato desta forma.

I started selling so I could maintain my lifestyle… not dismantle it”

Nancy poderia vender diversos tipos de itens legalizados, mas escolhe na venda de um produto proibido, um meio de manter o sustento e estilo de vida da família. Ora, portanto, ela tem consciência de que seu ato pode gerar consequências negativas à ela e, principalmente, à família, e ainda assim consuma a decisão de praticá-lo. O comportamento subversivo mais uma vez reaparece na análise. A série apresenta à audiência uma “mãe fora-da-lei” e a Internet é abarrotada de discussões acerca da personagem. Existem muitas hipóteses sobre a personalidade de Nancy, mas duas delas se encaixam dentro desta crítica. Alguns dos internautas dizem que a traficante é patologicamente diagnosticável – socio ou psicopata – e outros que o comportamento subversivo dela é um mero lifestyle.

De qualquer forma, esse comportamento de Nancy é exaltado e a aceitação da personagem é quase unânime. Taxada de meramente egoísta, mas intitulando-se como uma mãe leoa que faz tudo por suas crias, Nancy Botwin e seu café alcançaram um patamar icônico, o que, mais uma vez, confirma o nível de influência das imagens veiculadas pela televisão e da aceitação do consumidor (público, audiência, telespectador). Ela não consegue desvencilhar o comportamento criminoso, por assim dizer, mas este talvez seja o último ponto ao alcance do olhar de quem consome. A personagem, por mais politicamente incorreta que seja, por mais que pratique atos questionáveis sob diversos pontos de vista – como no episódio em que “aplica a eutanásia” em Bubbie, avó de Judah, sufocando (e matando) a senhora com um travesseiro, ao mesmo tempo em que dá uma lição de moral aos filhos –, tem, de uma forma ou de outra, o apoio do público que acaba corroborando com o tipo de prática moral da traficante.

Ainda em Weeds, a personagem vivida pela atriz Elizabeth Perkins, Celia Hodes, tem diversos tipos de atitudes hiperbolizadas, ligadas sempre à obesidade e à homossexualidade de sua filha de 10 anos. As questões são discutidas no texto da série, mais uma vez, pela utilização do politicamente incorreto. Junto a este ponto, unamos as amarras da moral. Celia não consegue se desvencilhar da realidade que está acometida. Junto à Nancy, ela faz parte do time das estereotipadas suburbanas de Agrestic que, insatisfeitas com o modo de vida que levam, buscam nas experimentações e consumo meios de amenizar a realidade que vivem.

Walter White, professor de Química, utiliza de suas formações técnico-acadêmicas para fabricar uma poderosa “versão” de metanfetamina. A finalidade (o fim) maior deste ato moral substancialmente negativo é a construção de um legado financeiro para ser deixado como herança à mulher e aos filhos, depois que descobre um tumor maligno nos pulmões em estágio avançado – o personagem, ironicamente, nunca havia colocado um cigarro na boca. Mais uma vez, um comportamento ligado à prática moral negativa é exposto. A relação do público com o personagem é de plena torcida para que ele não se dê mal. Eisenberg, como White é chamado a partir da 3ª temporada da produção, torna-se um grande nome do tráfico local, age sempre com a consciência da subversão da vida que passara a viver, continuando o convívio, inclusive, com seu concunhado Hank (Dean Norris), agente da DEA, departamento antidrogas dos Estados Unidos.

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Moralidade e exageros de condutas morais negativas

Em todas as séries citadas é possível identificar alguns comportamentos exagerados em suas histórias. A televisão consegue utilizar desse exagero para frisar um ponto ou criticar outros. Apesar de terem condutas morais negativas em excesso, Dexter difere, em sua produção, no foco de tal exageros. Enquanto em Weeds e Breaking Bad há uma extrapolação de condutas ligadas, inicialmente, a drogas, em Dexter esses comportamentos estão intrinsecamente ligados à prática assassina e à violência.

A moralidade (a moral prática e praticada, o ato, enfim, moral) é definida por Vázques (2005) como “o conjunto de relações efetivas ou atos concretos que adquirem um significado moral de acordo com a moral vigente e um componente efetivo das relações humanas concretas entre os indivíduos e a sociedade”. (VÁSQUEZ, 2005, p. 66).

A sequência de assassinatos que Dexter Morgan comete é um ato moral negativo que, ao mesmo tempo que se reforça como exagero, reafirma a natureza de seu vilão-herói (inversão de valores). Dexter é psicopata assumido – como é possível inferir a partir das sentenças: “As pessoas fingem muitas interações humanas. Eu finjo todas, e as finjo muito bem” (do episódio piloto); e “Eu amo Halloween. É o único dia do ano em que todo mundo usa uma máscara… não só eu. As pessoas acham que é engraçado fingir ser um monstro. Eu, eu passo minha vida fingindo que não sou um” (do episódio “Let’s Give the Boy a Hand”) – e, apesar de agir com o mínimo intuito de chegar a um fim positivo, não o realiza. Seus motivos e o fim são conscientes e afetarão, negativamente – com a morte –, outras pessoas e suas realidades e, logo, seu ato moral se torna negativo.

Desde sua adolescência, Dexter e seu pai criaram um tipo de código de ética para regular o comportamento e instinto assassino do perito em sangue. O código mostrava ao serial killer como esvair sua necessidade matando pequenos animais e lutando para implantar em sua vida padrões que o configurariam um ser humano padrão. Mais à frente, depois da morte de seu pai, Morgan começa a saciar seu instinto assassino matando assassinos em série, ou seja, pessoas que, de alguma forma, fizeram mal à sociedade.

No episódio “The British Invasion”, da segunda temporada, quando Dexter tem a chance de salvar a vida do colega de trabalho, ele não o faz: viola o código de ética de Harry (James Remar), seu pai, matando um homem inocente. O motivo, simples: Doake (Erik King) investigara o perito e descobrira a verdade sobre sua natureza assassina. Caso deixasse Doake à mercê de sua própria sorte (no entanto, provável morte), Dexter provavelmente seria pego. Tendo agido com a consciência do que seus atos resultariam, ele comete um (de tantos) ato moralmente negativo.

A audiência, mesmo sabendo que seus heróis são subversivos, que descumprem a lei ao bel prazer de seus interesses, que, em geral, pouco se importam com aqueles ao seu redor, torce por eles. A explicação disso tal seja que, por mais que seus atos sejam condenáveis, apresentam uma semelhança muito maior com a realidade do que a maioria dos heróis-comuns. As pessoas não são completamente boas e alguns de nós fazemos e temos ações questionáveis para chegar onde queremos. Talvez esta seja uma das justificativas de nos apaixonarmos por essas histórias.

Qual é a sua opinião?

Este artigo dá continuidade ao nosso especial sobre vilões e anti-heróis. No primeiro, tentamos desvendar por que gostamos tanto dessas figuras, buscando o auxílio da psicologia e fatos históricos para sustentar a tese. Clique na figura abaixo pra ler!

Vilões e anti-heróis

/ Para continuar a discussão:
Séries de TV e o Politicamente Incorreto: crítica à cultura norte-americana e suas facetas morais

Este texto é baseado na monografia de Lucas Soares, a qual foi adaptada para as páginas da revista Anagrama Vol. 7, No 2 (2013), da USP, e pode ser lida na íntegra aqui!

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Goiano, casado, jornalista, apaixonado por cultura e concurseiro. Morou em Brasília, no Rio de Janeiro e atualmente mora em Goiânia. Gosta muito de debates, pois acredita que as discussões enriquecem a todos. Mais textos de Lucas no New Home.

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