Image
Voltar ao topo
Exibir menu
12 de novembro de 2013

Slow fashion: chegou o momento da moda desacelerar?

O comportamento de moda está se reinventando em épocas de profundas mudanças sociais. O slow fashion chega com a proposta de um novo momento para a moda.

Slow Fashion
Quando no ano de 1967 o número de Maisons inscritas na Câmara Sindical dos Costureiros Parisienses caiu mais de 50%, Yves Saint Laurent, diante de um momento inseguro da alta costura, apressou-se em abrir uma butique de prét-à-porter de luxo, cujo modelo se multiplicou pelo mundo como um novo conceito de consumo de moda, eventualmente fazendo com que a indústria de confecção de roupas aumentasse sua demanda para que pudesse suprir o desejo do novo consumidor, sedento por novidades.

Foi assim que a moda como conhecemos hoje deu seus primeiros passos, tomando mais força na década de 80, a partir do método quick response – que havia sido desenvolvido para melhorar os processos de produção na indústria têxtil, a fim de diminuir o tempo entre as fábricas e prateleiras. E na década seguinte isso apenas evoluiu, chegando no final dos anos 90 e início dos 2000 com o fast fashion. A moda havia se democratizado.

Yves Saint Laurent em 1965

Yves Saint Laurent em 1965

Quando pensamos nas décadas anteriores, além de considerarmos seu contexto histórico, logo associamos também uma imagem que defina essa década, geralmente ligada à moda; do mesmo modo como quando alguém te chama para uma festa de temática anos 80 e você se apressa em comprar algo colorido e vestir polainas. Mas, e se essa festa fosse sobre os anos 2000, o que você vestiria? Como identificar esteticamente esses 13 anos? A moda hoje não só foi democratizada como também globalizada, sofrendo influência de todos os lugares do mundo. Grande parte do que é criado possui referências das décadas passadas, e unindo essas referências ao o que é produzido em cultura de massa, há uma imensa demanda por novidades.

O fluxo é tão rápido que sequer conseguimos acompanhar as tendências ou ter ideias o suficiente para criá-las, como disse o estilista Azzedine Alaïa numa série de entrevistas para o site Style.com:

“Um ser humano não é uma máquina. Especialmente quando se trata de criar. Você não iria pedir a um pintor ou escultor para conceberem uma exposição a cada dois meses, e ocorre o mesmo com o estilista”.

Quando você está lendo algum veículo de informação de moda, seja um blog ou uma revista, estou certa de que se depara com alguma tendência que não dura três meses marcada como “must have”. Roupas cujo objetivo principal é vender ou mostrar uma tendência que não possui nenhuma informação que a torne atemporal, de fato deveria ser chamada de “must have”? Acho que talvez não seja isso o que a gente realmente precisa ter em nosso guarda-roupa, mas sendo correto ou não, a indústria do fast fashion tem pregado a ideologia do “tenha” desde seu início.

Vivemos num momento em que o mundo está lidando com profundas mudanças sociais, sendo que grande parte dessas mudanças estão relacionadas com o ecossistema e o modo como o exploramos. Na tentativa de reparar os imensos danos que foram – e estão sendo – causados, o ideal de consumo excessivo pregado pelo fast fashion tem se tornado cada vez mais obsoleto, uma vez que a indústria da moda coopera para o esgotamento de combustíveis fósseis e a danificação do meio ambiente é constante, afetando desde reservatórios de água doce – que estão se esgotando devido às irrigações de plantações de algodão – ao ecossistema que é alterado pelo uso de pesticidas e outros compostos químicos. Nesse contexto, nos deparamos com uma necessidade de consumo consciente e uma forma de produção inteligente, não só na moda, mas também nos demais setores.

É a partir dessa necessidade de consumo e produção conscientes que surge o slow fashion, uma resposta à deterioração causada pelos métodos do fast fashion, que possui o objetivo de desacelerar a moda e incentivar um processo sustentável, atentando para a qualidade, durabilidade e criatividade. E quando toda esta importância é depositada na produção de uma roupa, o próprio consumidor acaba estabelecendo uma relação mais emocional com a peça.

É considerável o número de marcas que viram na desaceleração da moda uma oportunidade de inovação e conscientização, e vem seguindo a doutrina do slow fashion há algum tempo. Aquelas que ainda não são totalmente adeptas da produção sustentável se aproveitam do momento criando coleções focadas neste conceito, e até o fast fashion, oportunista como sempre, já colocou suas estratégias em campo. E não podemos deixar de lado a importância da popularização dos brechós, que é um dos grandes responsáveis na desaceleração da moda, celebrando a reutilização de roupas descartadas.

Mas mesmo com essas mudanças, a efemeridade na moda e a despreocupação com o consumo exagerado são questões que ainda vão demorar um bom tempo para serem de fato solucionadas. A questão da efemeridade é uma que está constantemente em pauta, porque quando há a necessidade de criação em excesso, uma das saídas é apelar para as cópias, algo que era restrito às marcas menores, mas se expandiu às grandes grifes nos últimos anos.

AleXandro Palombo - No Fake

A moda está sempre se reinventando. Isso é um fato. Mas do mesmo modo como o slow fashion indica uma produção de moda que acontece lentamente e com os cuidados necessários, acredito que esta maneira de criar e consumir moda será inserida na sociedade aos poucos. Não sei quanto tempo levará este processo, mas seria muito bom contar com uma moda menos efêmera e mais criativa, que remeta seus tempos áureos e eleve o sentido de personalização.

/ Para continuar a discussão:
Eduardo Biz discute a desaceleração do fast fashion e o começo de um novo momento

Aliás, este texto nos incentivou a correr atrás do assunto e a publicar o que pensamos aqui.

Gregory Martins argumenta que a moda brasileira está morta…

…no ótimo artigo “6 facadas na moda brasileira“. Vale a leitura!

Suzy Menkes, em “The New Speed of Fashion” para o NY Times…

…fala que a indústria da moda está quebrada em vários sentidos.

E você: também acredita que chegou a hora de revermos a maneira como consumimos as coisas?

/ Gostou deste post? Então experimente nossa newsletter semanal. Assine nossa newsletter.

/

Apaixonada por séries, arquitetura, moda e design. Escreve aqui sobre o que mais gosta, transitando entre estes tópicos. Seus textos são uma mistura entre o novo e o clássico.

/CultPopShow © 2008-2014. Todos os direitos reservados.   |   Agência WCK