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13 de novembro de 2013

Qual é o futuro da televisão?

O desejo por novas formas de produção e disponibilização de conteúdo é grande, causando dúvidas sobre o futuro da televisão. E a internet tem tudo a ver com isso.

Futuro da Televisão

David Schermann

No entanto, passamos a experimentar de realidade bem distinta quando se tornou possível assistir ao seu programa preferido no horário desejado, no aparelho de sua escolha e o melhor: onde você estiver. Mas a discussão é mais profunda. Não é apenas um hábito que está se transformando. O fato de os hábitos estarem diferentes possui uma significação mais complexa: enseja-se novas formas de produção e disponibilização de conteúdo.

Mudança de hábitos: o público muda, a televisão tem de mudar também

Futuro da Televisão

Correlacionemos com a realidade. A Netflix, empresa norte-americana de TV por internet, disponibiliza em sua “programação” inúmeras séries e filmes. O usuário escolhe se assiste da tevê, do iPad, de dia, à noite e o mais importante – que inclusive são parte do slogan da companhia – o quê e quando quiser.

Há uma mudança brusca na forma de se dialogar com o público. As pessoas não esperam mais pelo novo episódio de sua série estrear em seu país quando elas sabem que ele já está disponível na rede e que existem outros engajados na criação das legendas, por exemplo. Então, a barreira do idioma torna-se quase nula. É quase natural que as pessoas hoje optem pelo imediatismo a esperar pelo complexo caminho que é a chegada de uma nova temporada no Brasil. As emissoras, mesmo na TV a cabo, estão à mercê de seus anunciantes, diretores, programação e uma série de fatores invisíveis aos olhos do consumidor.

O formato que veremos no futuro será comandado por nós

Neste sentido, a Netflix revolucionou mais uma vez e já fez produções totalmente originais. Dentre outras, dois nomes experimentaram de um buzz recente. Orange Is The New Black, autoria de Jenji Kohan, criadora de Weeds, e House of Cards, estrelada por Kevin Spacey e criada por Beau Willimon, são as duas primeira séries criadas para internet a serem indicadas ao Emmy, o Oscar da televisão norte-americana.

Ao todo, foram 14 indicações. A surpresa? House of Cards levou um dos grandes prêmios da noite, o de melhor direção, recebido pelas mãos do cineasta David Fincher pela direção do piloto da série (dividido em seus dois primeiros episódios). Outro fator interessante é que as duas produções já tiveram confirmadas suas segundas temporadas, devido ao sucesso inegável de suas estreias.

Enquanto na televisão tradicional um episódio é exibido por semana – necessário até por conta de sua manutenção, chance na qual os canais enxergam para cobrarem a mais de seus anunciantes – essas séries tiveram todos os seus episódios liberados para “consumo” de uma vez só. Num final de semana foi possível assistir a todos os episódios, sem esperas, sem aquela ansiedade de querer consumir o produto e não ser possível. O público escolheria de que forma assistiria às produções.

A televisão do futuro será menos compromissada: você ditará as regras

A avaliação dessa jogada da Netflix – se é positiva ou não – e de até onde seria possível fazer uma série retornar o valor investido em sua produção, pode cair numa espécie de paradoxo. A criação da expectativa nos consumidores é um dos meios de fazer com que o dinheiro investido pelo anunciante seja, de uma forma ou de outra, recompensada. Em outras palavras: o anunciante paga, você assiste, vê também suas propagandas nos intervalos, e todo mundo ganha. Na internet, você tem a possibilidade de se esquivar. Talvez não totalmente, mas é mais fácil do que na televisão tradicional.

Leva-se tempo para se contabilizar as transformações que essas mudanças inserem na realidade da televisão, principalmente em escala global. Não é de hoje que séries são criadas para internet, e inclusive algumas já foram premiadas, como Web Therapy, estrelada pela ex-Friends Lisa Kudrow. A discussão deste artigo fica por conta de uma emissora de TV para web, líder em seu mercado, estar ditando regras que tem potencial de alterar completamente a forma da produção tradicional atual, visto que suas produções estão modificando o DNA de suas estruturas básicas.

Com este sucesso recente, outras empresas já estão de olho na inserção de suas companhias neste ramo de aparente sucesso. As grandes Google e Apple, que sempre ensaiaram suas entradas no mundo da televisão na web, estão com os olhos grandes e atentos ao que a Netflix vem fazendo. O formato não seria muito desigual, mas o que seria diferente é a forma de cobrar por este conteúdo e a de disponibilizá-lo ao público. A Apple e seu iTunes conseguiram fazer isso com o mundo da música, se formos comparar. A venda de músicas digitais foi uma revolução no cenário musical e hoje diversas outras oferecem o serviço.

Das mudanças que já experimentamos e têm se tornado cada dia mais comuns

Em meio a todas essas mudanças, já enxergamos o ensejo de outras que podem contribuir para uma mais veloz transformação da cena mundial. Grande parte das emissoras tradicionais já disponibilizam seus episódios e programas online no momento seguinte à sua exibição. Esta é uma tentativa de se tornar a fonte principal de acesso ao conteúdo produzido por elas. Nem sempre é uma característica que realmente prende o usuário, pois uma de suas amarras ainda é a publicidade atrelada à sua distribuição. Esta barreira é quase nula quando se trata do download ilegal dos arquivos.

Através da leitura dos estudos do filósofo francês contemporâneo Pierre Lévy, esta ilegalidade não seria necessariamente arbitrária. Para Lévy, não é saudável qualquer tipo de censura na rede, pois a cibercultura tende somente a ser parte fundamental da realidade. Não é viável mais pensarmos que o suporte físico, antes essencial para transmitir e vender informação, seja a situação do futuro. CDs, DVDs, o próprio aparelho de televisão já não são materiais que precisamos para consumir música, filmes, séries ou qualquer programa feito para televisão.

Em recente entrevista ao jornal O Globo, Pierre fez uma declaração muito pertinente ao processo vivido hoje. “É uma transição enorme, e é provável que muitas dessas companhias não sobrevivam à necessidade de sair de uma era em direção à outra. Há milênios, muitos dinossauros morreram numa transição parecida”. É impossível não se adequar se o intuito for cativar cada vez mais usuários e consumidores de seus produtos.

Do comentário latente à narração em massa

Quem já utiliza das redes sociais para gerar não só buzz, mas uma verdadeira malha com potenciais consumidores, larga na frente numa corrida cuja linha de chegada é medida de forma instantânea. No Twitter, por exemplo, é comum vermos hashtags – formas de se marcar assuntos relacionados ao lançamento de séries, episódios e, muito comum, a comentários – atingindo o topo dos trending topics (assuntos mais comentados na rede no momento), muitas vezes de forma espontânea. Neste ponto, abre-se um leque gigantesco de novidades correlacionadas às transformações de que estamos falando.

Antes, era possível que as pessoas tecessem comentários ao assistir uma produção – tal qual série, filme, novela. Mas, seu público-alvo estaria limitado aos seus parentes – mãe, avó, pai, irmãos – e, no máximo, àqueles amigos que por ventura estivessem em sua casa. Este é um fato inegável. E como a comunicação é parte fundamental do ser humano, ter como aliado uma rede social como o Twitter potencializa esta comunicação em maneiras outrora inimagináveis. E aqui podemos trabalhar com mais um conceito de Pierre Lévy. O filósofo defende que a inteligência coletiva é uma das (boas) características da internet.

Hoje, quando um episódio de estreia de uma série é lançado na rede ou exibido na televisão, é possível assistir a um verdadeiro show de comentários e replicações sobre esta produção. A internet potencializa aquilo que acontecia antes, pois soma as experiências acerca daquele produto e expõe uma nova forma de se olhar para ele. [A internet] possibilita a partilha da memória, da percepção, da imaginação. Isso resulta na aprendizagem coletiva, troca de conhecimentos”, afirma Lévy. É o verdadeiro combustível que faz o universo das ideias borbulhar e, enfim, viver.

O ciberespaço e a produção atual

O ciberespaço já é um lugar-comum onde encontramos praticamente tudo o que procuramos. No sentido de manter a discussão, é impossível não trazer à tona a importância que o YouTube tem nisso tudo. Dentro deste espaço virtual, ele talvez seja um dos principais difusores de conteúdo e informação atrelados a tudo que já foi discutido. As possibilidades que o canal de vídeos da Google oferece ao público em geral é algo nunca experimentado antes. Criado em 2007, hoje o Youtube experimenta seis bilhões de horas de vídeo assistidas por mês, 100 horas de vídeos enviados por minuto. Somente pelos números já é possível perceber que alguma coisa acontece aí.

Artistas lançam seus videoclipes primeiramente na internet para depois irem à televisão, processo que foi totalmente invertido – vide tempos de glória da MTV. Teasers e imagens promocionais de séries e filmes são lançados online antes de aparecerem nas telas tradicionais de cinema e tevê. Como competir com este universo senão aliar-se a ele? Como ignorar todo este processo de mudança e transformação que este cenário experimenta? Como sobreviver tendo como base apenas o tradicional?

Não há respostas concretas. Há possibilidades de uma produção que renegue tais mudanças sobreviva e faça sucesso (e encontre, mesmo de forma não-autorizada, seu espaço online), bem como é possível que esteja fadada ao fracasso ao ignorá-las. O fato é que o mundo como conhecemos está se transformando e essas mudanças estão alterando consideravelmente nossos hábitos e cotidiano.

Diante disso tudo, é possível inferir que o futuro da televisão é a internet. E o futuro da internet, qual será?

Foto de abertura: David Schermann.

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Goiano, casado, jornalista, apaixonado por cultura e concurseiro. Morou em Brasília, no Rio de Janeiro e atualmente mora em Goiânia. Gosta muito de debates, pois acredita que as discussões enriquecem a todos. Mais textos de Lucas no New Home.

  • Rogério Braga

    Texto incrível! Parabéns pela forma leve e didática usada para falar sobre o assunto. :D

    • Lucas Soares

      Muito obrigado! E na sua opinião, qual o futuro da internet?

      • Rogério Braga

        A internet absorverá a televisão até não ser mais possível distingui-las, é só uma questão de tempo. Acredito que a forma como percebemos as tecnologias hoje também mudará drasticamente com a paulatina inserção de hardwares e softwares na vida da sociedade.

        • Lucas Soares

          Bem verdade, comungo de sua opinião. Acredito que com o advento de hardwares com a tecnologia que o GoogleGlass está propondo, por exemplo, terá o poder de revolucionar a vida em sociedade como vivemos hoje. E não demorará a acontecer. Acho que podemos viver uma revolução neste sentido em no máximo 10 anos.

          • Bruno Soares

            Lucas, eu acredito cegamente no que você falou. Por exemplo, a minha TV permite acessar Youtube e outras redes sociais. Constantemente, eu não estou a fim de assistir a programação da TV e parto para os vídeos do Youtube no lugar de algum programa. Na minha opinião, a chave desta transição está nos aparelhos de TV. Assim que eles tiverem um poder de processamento de um PC bom. Acabou!! hahaha. Gostei do texto! Show!!!

  • Lucas Soares

    Muito obrigado! E na sua opinião, qual o futuro da internet?

  • sandro stanley soares

    O artigo está muito bom. Penso que o que ocorrerá em breve será a fusão dos meios que farão parte de uma grande rede e o capitalismo terá que se adaptar(como até hoje se adaptou) para continuar lucrando. Como a evolução é constante este será apenas mais um momento de transição e a internet como os televisores de “tubo” serão peças de museu.
    A propósito vai uma sugestão: Qual o futuro do aparelho televisor? Parabéns pelo artigo.

    • Lucas Soares

      Muito obrigado. Como salientado pelo filósofo Pierre Lévy, a essa transição – ou a uma espécie dela – não sobreviveram os dinossauros, pois não conseguiram se adaptar àquela terra caótica pós-chuva de asteróides. Hoje, enxergo esta evolução como algo mais do que natural, justamente por esta peça “fundamental” que é o lucro. No entanto, de verdade acredito que o capitalismo já está beirando seu limite, e até esta forma de se cobrar e receber lucros terá de mudar bruscamente. Afinal, não é acerca disso que os downloads ilegais de vídeo e música, principalmente, estão mudando os rumos financeiros destes dois grandes mercados?

      Obrigado pela sugestão. É uma reflexão positiva e que poderemos desdobrar em breve. Um abraço!

  • KennedyHighBR

    Quando o rádio explodiu, ele ia matar o teatro. Quando a televisão explodiu, ela ia matar o rádio. Quando a internet explodiu, ela ia matar a televisão e o jornal impresso. Nenhum deles acabou até hoje.

    • Lucas Soares

      é um fato que a quantidade de gente que vai ao teatro, escuta diariamente ao rádio, lê diariamente jornal e assiste diariamente à televisão regular é espetacularmente menor do que quando cada uma dessas “invenções” estiveram em suas épocas de ouro. nada “morre” de um dia para o outro. a internet diminuiu consideravelmente o “consumo” de informação em papel, bem como vem diminuindo consideravelmente o número de gente que se prende aos horários encadeados em suas programações. então, é algo a se pensar. a forma como a sociedade se comporta é um dos melhores objetos de estudo que temos. na minha opinião, claro.

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