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3 de dezembro de 2013

Purpurina antiga em São Paulo em Hi-Fi

O novo documentário de Lufe Steffen mostra como era a noite gay paulistana nas décadas de 60, 70 e 80, um dos maiores responsáveis pelo aspecto inovador da diversão noturna de São Paulo.

São Paulo em Hi-Fi
Se o Rio de Janeiro é a maior representação do dia, São Paulo é o grande expoente da noite brasileira. Da gastronomia chique ao churrasquinho grego, do clube de grã-fino ao forró no bar da esquina, a noite paulistana é ampla e plural como poucas no mundo. Tanta diversidade acabou influenciando e inspirando inúmeras manifestações que ajudaram a moldar grande parte da cena cultural do país.

Um dos maiores responsáveis, senão o maior, pelo aspecto inovador da diversão noturna de São Paulo é a cena gay. Transgressora por natureza, a noite colorida tenta o tempo todo se recriar, seja para se adaptar às leis cada vez mais duras, seja para fugir ou peitar o preconceito, seja para se manter num mercado instável e cruel. Superar-se nesse meio é uma questão de sobrevivência.

Depois de documentar a quantas anda a atual noite gay de sampa, em A Volta da Pauliceia Desvairada, o cineasta Lufe Steffen traça um flashback da mesma cena em São Paulo em Hi-Fi. O passeio, cheio de nostalgia, passa rapidinho pelos anos 60 e leva mais tempo nas décadas de 70 e 80, terminando no comecinho dos anos 90. No filme, protagonistas e público daquelas épocas falam sobre clubes, casos e personas que se destacaram na construção da identidade LGBT de quando o sol se põe por trás dos prédios na selva de pedra.

Recheados por um rico material de arquivo, os depoimentos ganham vida e brilho. O diretor também é feliz em destacar, no pouco tempo disponível, os principais traços de personalidade de cada narrador – assim, percebemos claramente o viés com que cada um relembra os acontecimentos: João Silvério Trevisan, por exemplo, tende a ser analítico; Leão Lobo fala de tudo com deslumbre; e Kaká Di Polly, bem, é puro surrealismo. As histórias hilárias selecionadas também mantém o ritmo do longa sem cair na chatice.

Ainda que o tema seja completamente irreverente, a estrutura do doc segue uma forma bem quadradinha, quase careta – por isso fica confuso quando os vídeos deixam de representar o momento cronológico para fazer parte semanticamente da história. Além disso, a ausência de créditos no começo, apesar de fazer as pessoas focarem nas histórias, acaba tirando um bocado do peso de alguns depoimentos.

Apesar do tom leve, o filme não passa batido por assuntos mais sérios, como a repressão policial, o surgimento da AIDS e o Plano Collor – tudo sem pieguismos ou melindres. Trata-se de um recorte completo e bastante vivo de uma época que, segundo seus personagens, encontra-se morta e enterrada. São Paulo em Hi-Fi é um valioso documento histórico da cultura nacional – afinal, a arte também se acaba de dançar na pista.

O filme está rodando pelo país, sendo exibido por enquanto apenas em festivais. Para saber a próxima exibição, fique de olho na página do Facebook.

Este texto foi originalmente publicado em Hello, I’m Jackson.

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Faz terapia pra saber o que escrever na bio. Suas epifanias cinematográficas podem ser conferidas também no Helloimjackson.

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