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2 de julho de 2014

Orphan Black, Bechdel test e a figura feminina na mídia

A série Orphan Black provoca inversão de papéis e levanta uma questão ainda relevante: em pleno século 21, será que os gêneros masculino e feminino são de fato retratados com igualdade na mídia?

Muitos não sabem – eu mesmo descobri há pouco tempo –, mas o Instituto Nacional de Medicina dos EUA promoveu um estudo (clique para ler) sobre mudanças culturais, valores e regras em relação a gêneros e conteúdo sexual e/ou violento na mídia ao longo dos anos. A pesquisa analisou 855 dos filmes mais rentáveis do cinema lançados entre 1950 e 2006. E o resultado traz dados bem curiosos.

Pra começar, a média de personagens masculinos em relação a personagens femininos é de dois para um. Além disso, mulheres estão envolvidas duas vezes mais em situações sexuais que homens. E, ao longo do tempo, a diferença de cenas de sexo explícito protagonizadas por mulheres só aumentou. É importante lembrar que a pesquisa não difere orientação sexual, porque a questão não é esta. Guarde essas informações aí com você, logo voltamos nisso.

Virginia Woolf, em seu ensaio sobre a figura feminina na literatura, “A Room of One’s Own”, expôs o fato de que mulheres não têm vez na ficção (menos ainda na realidade de 1929, quando a obra foi publicada), argumentando que elas raramente são retratadas como amigas e que sempre possuem alguma ligação com homens, além de dependerem de suas ações para reagirem na história – uma visão bem avançada para a época, diga-se de passagem.

Dito isto, outra coisa que pouca gente sabe é que existe um teste que avalia o quão pró-mulheres uma obra é. Intitulada de Bechdel test em homenagem a sua criadora, Alison Bechdel, a “certificação” exige que a obra apresente pelo menos duas personagens femininas nomeadas, conversando sobre outros assuntos que não sejam homens. Fácil, né? Só que não. O site bechdeltest.com examinou mais de 5.000 filmes (clique para ver) e eu fiquei surpreso com o número de produções que não passaram nos quesitos. E mesmo os que passaram, não significa que sejam bons ou representem mulheres de maneira menos estereotipada, etc. Nos dias de hoje isso soa bizarro, porém, perdi a conta da quantidade de longas que assisti com mulheres sendo exploradas como símbolos sexuais, usando colantes ou servindo de meras ajudantes para personagens masculinos cumprirem suas agendas. Junte isso aos dados da pesquisa de gêneros ali em cima e pronto, temos o que precisamos para continuar.

Orphan Black, Bechdel test e a figura feminina na mídia

Orphan Black e a inversão de papéis

E é aqui que entra Orphan Black. A série protagonizada pela maravilhosa Tatiana Maslany estreou em 2013 e é uma das mais legais dos últimos tempos (sem exageros). Entre vários motivos que confirmam a qualidade de Orphan Black, o que mais se destaca é o fato de que personagens femininas são fortes e lideram a produção com folga e, não só passa no Bechdel test, como também traz uma história complexa, cheia de reviravoltas e situações WTF.

Orphan Black, criada por Graeme Manson e John Fawcett, conta a história de Sarah Manning, uma garota rebelde que testemunha o suicídio de uma mulher muito parecida com ela e acaba assumindo sua identidade, conta bancária e namorado. Até aí tudo bem, você pensa que será uma versão mais aprimorada de A Usurpadora, mas logo no primeiro episódio descobrimos que Sarah, na verdade, é um clone. Sim, um clone e que existem outras inúmeras cópias com personalidades completamente diferentes.

Com Tatiana Maslany interpretando pelo menos 9 personagens distintos, Orphan Black devolve o poder devido às mulheres no entretenimento. Alguns críticos até a consideram como “a vingança feminina”, taxando-a de feminista demais. Sim, é uma série sobre mulheres, mas discordo sobre ser uma vingança. Assim como qualquer outra obra de ficção, que lida com temas reais, o programa apenas escancara uma verdade que sempre esteve aí pra todo mundo ver: a diferenciação de gêneros e a falta de autonomia do feminino. Propositalmente, os personagens masculinos são coadjuvantes para reforçar essa inversão de papéis. Porém, eles não são malas e, apesar de geralmente apenas reagirem às ações das clones, possuem funções importantes na trama (clique para ler).

Eu sou mulher e dona do meu corpo

Outra questão importante que Orphan Black levanta é a da autonomia e do direito das mulheres serem donas de seus próprios corpos. Em tempos de estupros no metrô, pesquisas sobre roupas curtas ou comportamentais (clique para ler), a ideia de propriedade é tema relevante. E aqui vale reproduzir a declaração de Tatiana para o TVGuide:

Há algo sobre a ideia de propriedade do corpo que eu acho que diz respeito a realidade da mulher. É interessante que isso aconteça no contexto de clones, mas é algo que toda mulher se pergunta: Eu sou dona do meu corpo? Quem sou eu se não sou dona do meu corpo? Quem sou eu se outra pessoa decide tudo por mim?”

Neste caso, Orphan Black mostra a busca das mulheres por autonomia (clique para ler). É até engraçado um homem escrever sobre isso, mas é justamente o que a série nos causa, aquela vontade de entender melhor o jogo. Em um mundo onde homens palpitam sobre assuntos que deveriam dizer respeito apenas às mulheres, como a criminalização do aborto, é legal ver as mesmas tomando conta de suas ações e respondendo por elas, como deveria ser sempre para todos.

Concluindo, apesar de estar mais preocupada em falar sobre mulheres, a série também traz outros pontos pertinentes, como a quebra de estereótipos, apresentando personagens gays confortáveis com sua orientação sexual, fazendo com que isso não seja o fato mais importante sobre eles; e a incessante procura pela individualidade, o desejo de se sentir insubstituível, ser único. Você nasceu, é dono de si. Orphan Black é simplesmente espetacular e merece sua atenção. Volte aqui depois para nos dizer o que você achou.

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Criador do @cultpopshow, amante de cultura pop e boas conversas. Faminto por novas ideias e fascinado pela história da juventude. Ama ler, escrever, ouvir músicas e assistir a séries de TV.

  • Natalia Fazenda

    Apenas vou começar a assistir essa série hoje mesmo!

  • Lucas Soares

    acho a discussão muito válida e acho a série uma preciosidade moderna. a tatiana é uma atriz excepcional e, por vezes, esquecemos que tantos personagens tão fortes existem pela também feroz produtividade dela.

    gosto muito de como temáticas “polêmicas” são tratadas com leveza e naturalidade pelos roteiristas, até mesmo a questão dos clones em si, por exemplo. outra linha de pensamento muito pertinente é a quebra daquele ciclo medonho de que mulheres dependem dos homens para qualquer coisa.

    não quero que meu discurso soe feminista, mas não há nada mais prazeroso do que ver uma mulher tão forte quanto a sarah, por exemplo! exemplo total. emmy para tatiana, please! cheers, bbc america <3

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