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30 de janeiro de 2014

O que Neil Gaiman tem a dizer sobre o futuro da humanidade?

O mestre da fantasia Neil Gaiman explica o porquê a imaginação, a leitura e a empatia são importantes ferramentas para o nosso futuro.

Neil Gaiman
Um dos mais importantes autores contemporâneos, dono de romances fantásticos – como
Deuses Americanos, Stardust e Belas Maldições – e HQs que ajudaram na consolidação do gênero de quadrinhos adultos – como Sandman -, Neil Gaiman tem algo a dizer sobre o futuro da humanidade. Em uma palestra na The Reading Agency, registrada pelo jornal britânico The Guardian, Neil Gaiman fala o que acha que não pode faltar para que o amanhã seja melhor que hoje. E sua tese tem muito a ver com um de seus personagens, o Morpheus de Sandman, mesmo nome do deus grego dos sonhos e que, em tradução literal, significa “moldador de sonhos”. Basicamente, Gaiman acredita que o futuro deve ser moldado por sonhos, pela imaginação e pela leitura. Muita leitura.

E como achar o contrário, quando se ganha a vida com palavras por cerca de 30 anos? Não só isso, para ser um bom escritor, é preciso antes ser um bom leitor. Com isto, a experiência acumulada de Neil Gaiman o fez concluir que não há futuro sem o estímulo à imaginação e compartilhamento da mesma.

Para Gaiman, há duas coisas em que a ficção pode ser útil. A primeira é criar uma porta de entrada para a leitura. A vontade descontrolada de querer saber o que acontece a seguir, de virar logo a página, de se emocionar com personagens e situações, proporciona uma viagem sem volta a um universo completamente diferente, que nos ensina novas maneiras de enxergar o mundo, de superar desafios. A segunda é desenvolver empatia. A empatia nos leva a lugares inexplorados, nos mostra que há pessoas como nós por aí, com as mesmas dificuldades e circunstâncias. É uma ferramenta indispensável na construção de uma sociedade melhor, menos obcecada com o individualismo.

O escritor defende a preservação de bibliotecas, além de acreditar que nem todos os livros deveriam migrar para as telas. Abaixo, alguns trechos transcritos da tradução feita pelo blog index-a-dora:

“Bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação. (…) As bibliotecas realmente são os portais para o futuro.”

E finaliza:

“Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordados. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.

Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.

Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e imaginar e compreender.”

Leia o texto original no The Guardian. E aqui o vídeo da palestra:

/ Para continuar a discussão:

Considerando o que foi pontuado, vale lembrar que nós brasileiros não temos o hábito de ler. Diferente dos europeus, não crescemos vendo nossos pais lendo, além da evidente falta de interesse pela leitura. Em uma pesquisa feita pelo Instituto Pró-livro de São Paulo, pelo menos 53% dos brasileiros disseram que não têm tempo para ler. E outro dado interessante é que o Nordeste é a região que mais lê no Brasil, com cerca de 4,3 livros por pessoa/ano. E o Norte é a região que menos lê, com cerca de 2,7 livros por pessoa/ano.

O estudo ainda aponta outros fatores para explicar o porquê o brasileiro não lê. Entre eles, estão o analfabetismo (que está diminuindo, mas ainda é um fator preocupante), professores mal preparados, a exploração/colonização portuguesa (portugueses são os europeus com menos interesse pela leitura), os altos preços dos livros e a falta de incentivo dos pais às crianças.

Enfim, precisamos mesmo é levantar, pegar um livro e ler. Digital ou impresso, o que importa é que mudemos esses números expressivos. Se não, não só um Brasil melhor, como um mundo melhor, estará cada vez mais longe de nosso alcance. Neil Gaiman sabe o que diz.

O medo e a fantasia na obra de Neil Gaiman.

O professor Mário Feijó, de produção editorial da Escola de Comunicação da UFRJ, fala sobre a literatura fantástica do autor inglês.

Por que o brasileiro não lê?

Filipe Larêdo responde a questão no PapodeHomem.

*Este post foi propositalmente ilustrado com uma imagem para incentivar a leitura. Chegou até aqui? Deixe seu comentário ali embaixo.

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Criador do @cultpopshow, amante de cultura pop e boas conversas. Faminto por novas ideias e fascinado pela história da juventude. Ama ler, escrever, ouvir músicas e assistir a séries de TV.

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