Image
Voltar ao topo
Exibir menu
28 de maio de 2014

O Hip Hop virou Hip Pop?

Em meio a thrift shops e the monsters, o Hip Hop se multiplicou em diversas vertentes e se tornou recurso de capitalização. Aqui um papo sobre suas origens e referências numa versão atualizada da pergunta: o que veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Você, leitor, provavelmente está acostumado a listas. A internet está recheada dos mais diferentes tipos, quem são os mais ricos, os mais poderosos, quem mais “lacrou”, enfim, a todo momento uma lista tentando definir o que é melhor ou pior é feita em algum canto da web.

E você também já ouviu falar da Billboard – um dos maiores, se não o maior, termômetro no que diz respeito ao que está ou não fazendo sucesso (números em tabela). Dê uma olhada na lista abaixo:

 

  1. 1. Eminem: “The Monster” [ft. Rihanna]
  2. 2. Drake: “Hold On, We’re Going Home” [ft. Majid Jordan]
  3. 3. Mike Will Made It: “23” [ft. Miley Cyrus, Wiz Khalifa and Juicy J]
  4. 4. Jay Z: “Holy Grail” [ft. Justin Timberlake]
  5. 5. Robin Thicke: “Blurred Lines” [ft. T.I. and Pharrell]
  6. 6. YG: “My Hitta” [ft. Jeezy and Rich Homie Quan]
  7. 7. Chris Brown: “Love More” [ft. Nicki Minaj]
  8. 8. Macklemore & Ryan Lewis: White Walls [ft. ScHoolboy Q and Hollis]
  9. 9. Eminem: “Rap God”
  10. 10. Justin Timberlake: “TKO”

Esse era o top 10 do Hot R&B/Hip-Hop Songs de algumas semanas atrás.

2013 ficou marcado como a primeira vez em 55 anos de existência da Billboard em que nenhum cantor ou cantora negra conseguiu atingir o #1 no Hot 100, a mais famosa e disputada lista da publicação. Ao longo desse mesmo ano, Robin Thicke, Macklemore e Eminem ocuparam diversas vezes o primeiro lugar da Hot R&B/Hip-Hop Songs. Curioso, não? Essa não é uma discussão sobre ser “negro o suficiente” ou “branco demais” (se é que esse debate faz sentido em qualquer situação). Que brancos podem e conseguem fazer Hip Hop é óbvio, mas é interessante observar que a lista de R&B/Hip-Hop Songs foi encabeçada por artistas caucasianos durante 44 das 52 semanas de contagem, em 2013. Isso inclui uma sequência de 37 semanas que foram intercaladas entre a dupla Macklemore & Ryan Lewis ou Robin Thicke.

“Hip-Pop”

Macklemore & Ryan Lewis

Macklemore & Ryan Lewis

Mas antes de apontar dedos, é preciso entender o objetivo dessas listas. Mais do que identificar um gênero específico – seja ele Hip Hop, Country ou Latino, entre outros – elas também buscam identificar um público. Se uma delas começa a sugerir o que é ou não Hip Hop ou R&B, caminhamos para um terreno escorregadio de questionar quem ou que é “negro o bastante” para isso. O que seria arbitrário e arriscado demais para a indústria musical. Contudo, se antes as listas eram baseadas no que o público escutava nas rádios direcionadas ao público negro, agora, é um conceito muito mais confuso e dúbio, baseado em números digitais que privilegiam o que é pop. I hate these blurred lines…

O rap sai do armário

A Rolling Stone fez uma lista (sempre elas, as listas) em 2011 com o título de “Introducing the King of Hip-Hop”. Dentro de nove quesitos diferentes, a revista indica quais são os maiores nomes do gênero. E em todos eles, apenas um nome feminino: Nicki Minaj. Pode parecer pouco, mas a presença de Nicki em meio a nomes como Jay Z, Ricki Ross, Kanye West e Snoop Dogg possui um peso maior pela subcategoria associada a seu nome.

Minaj é uma das maiores representantes (talvez até sem saber) do que é conhecido no meio underground como queer rap. Junto com Nicki, que apareceu para o grande público em 2010 com o lançamento do álbum “Pink Friday”, nos anos seguintes artistas como Mikky Blanco, Le1f, House of Ladosha – negros, gays e que desafiam os limites de gênero em suas apresentações –, Brooke Candy (ex-stripper e lésbica) e Iggy Azalea (branca, loira e australiana) viram a luz do dia nas paradas de sucesso.

Com rimas tão fluídas quanto os melhores MCs – Mikky Blanco fazendo freestyle nas ruas –, ou fazendo versões mais glamorosas de rappers famosos – B.M.F., do Ricki Ross se transforma em “Black/Model/Famous” na versão da House of Ladosha. Em clipes bem feitos, como os de “Opulence”, da Brooke Candy, ou do hit do verão americano, “Fancy”, da Iggy Azalea. Ou em apresentações extremamente teatrais, como a de Minaj no Grammy de 2012. O queer rap não está relacionado apenas à orientação sexual de quem canta, mas é todo o estilo que o compõe. Performances superproduzidas, roupas provocantes, rimas que não poupam nenhum assunto e twerk. Muito twerk.

Mas nem tudo são flores. E twerk.

Sabemos de todas as polêmicas que Miley Cyrus se envolveu desde que lançou seu álbum “Bangerz”. O single de estreia do último registro de Miley, “We Can’t Stop”, funciona como hino para jovens que não querem nada além de diversão. A cantora faz o twerk com ursinhos de pelúcia, usa grillz, correntes de ouro, acessórios que até pouco tempo atrás só encontraríamos em um clipe do Fat Joe ou do Nelly. E é aí que começa a polêmica. Miley, que surgiu dando vida à personagem Hanna Montana, da Disney, começou a usar diversos elementos e símbolos tradicionais do Hip Hop para mostrar ao mundo que não era mais uma princesinha. Isso não é nem um pouco novo. Christina Aguilera, Britney Spears e tantas outras fizeram o mesmo quando resolveram desassociar-se da imagem de meninas meigas do Club do Mickey, a diferença é que quando isso aconteceu, nunca tínhamos ouvido falar de redes sociais.

Miley Cyrus

Miley Cyrus

Justin Bieber também é um exemplo recente de como o Hip Hop – e seus elementos característicos – são usados como ponto de virada no momento em que o artista quer mostrar mais maturidade (ou rebeldia) para o público. Michael Jackson e Beyoncé são exemplos de artistas afro-americanos que sofrem críticas até hoje por supostamente terem “embranquecido” para se encaixar nos padrões de beleza impostos pela mídia. Mas e quando o processo contrário acontece, e os artistas resolvem “enegrecer”? Ou melhor, neste caso, “eniggrecer”. Como é o caso dos B-Stylers, jovens japoneses que fazem bronzeamento, penteados e usam roupas relacionadas à cultura afro-americana para se parecerem com rappers.

Até que ponto isso é legítimo? Usar componentes de uma cultura para se autoafirmar sem propriamente fazer parte dela é válido? Até que ponto essa apropriação pode ser considerada somente uma forma de expressão ou passar a ser uma caricatura do gênero? O Hip Hop se misturar à outras culturas não é o problema. Muito pelo contrário, dessas misturas de culturas e movimentos podem surgir diversos produtos que são tão incríveis quanto aquilo que os originou. O problema é quando isso é usado apenas como forma de capitalização. Os artistas pescam elementos isolados e fora de contexto e se apoderam deles como se fossem seus criadores. E isso é refletido nos fãs, que adotam a estética, o estilo, o som e não procuram saber a origem daquilo. Ou, ainda mais grave, acabam apontando a fonte de inspiração como o que é cópia. Quase em uma versão moderna e pop da pergunta: o que veio antes: o ovo ou a galinha?

Enquanto você pensa nas possíveis respostas, aumente o som do seu carro e divirta-se. Afinal, we can’t stop and we won’t stop…

/ Para continuar a discussão:
Cantores brancos estão dominando o R&B?

Será que o R&B está seguindo o mesmo caminho do rock?

A cultura afro-americana no Japão

A busca pela estética, estilo e comportamento da cultura Hip Hop por jovens japoneses.

Gay rap: o impensável se torna realidade

Durante décadas, vozes gays não tinham vez no hip hop. Agora, finalmente, elas estão se manifestando.

NYC’s Queer Rap

Como um grupo de artistas de Nova York está mudando a identidade do hip-hop.

Miley Cyrus precisa fazer uma aula de estudos afro-americanos

Um texto que cai na areia movediça mental que é tentar analisar Miley Cyrus e o que diabos acontece no clipe “We Can’t Stop”.

/ Gostou deste post? Então experimente nossa newsletter semanal. Assine nossa newsletter.

/

Acha que escuta e enxerga o que está ao seu redor de um jeito diferente que a maioria das pessoas. Ama moda, gosta muito de música e adora divagar sobre as possíveis conexões que essas coisas têm com o resto do mundo. E faz uma lasanha deliciosa.

/CultPopShow © 2008-2014. Todos os direitos reservados.   |   Agência WCK