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15 de janeiro de 2014

Minha religião é cinema

Ir ao cinema é uma verdadeira viagem a um universo paralelo sagrado, onde o projetor (o profissional, não o aparelho) é o ministro de uma grande celebração; e o filme é o próprio messias.

Cinema

Exibição do primeiro filme 3D da história. Eyerman, para Life, 1952.

É pra ficar viajando da próxima vez em que você sair pra ver um filme. As salas de cinema se transformaram num arquétipo de espaço sagrado na contemporaneidade. São dogma, fuga, fé. O coletivo e a comunidade, o subjetivo e a experiência. Nelas, a audiência é “transportada” para outras realidades, o tal não-lugar, e nesse processo é auxiliada por elementos produzidos especialmente para tal fim. Tudo ajuda, começando pela entrada.

Entre as características comuns à maioria das salas de exibição, pode-se dizer que para se chegar às poltronas, é preciso percorrer corredores que levam a um lugar situado em um nível diferente do chão – geralmente acima deste, tendo-se de subir uma inclinação mesmo dentro do ambiente, para se chegar aos lugares de sentar que agora são dispostos no modo stadium. As luzes são poucas e suaves, o que sempre deixa o lugar iluminado de forma soturna em qualquer hora do dia – e, como característica do não-lugar, torna-se praticamente impossível a orientação geográfica assim como definir qualquer condição climática do espaço fora do recinto. Sentado confortavelmente, o público aguarda o início da película, geralmente ouvindo música erudita, ou suave, num volume baixo – mas alto suficiente para que os ruídos mundanos sejam anulados. A eficiência desta configuração de elementos em sacralizar o espaço pode ser comprovada pelos diálogos dos presentes antes mesmo do filme começar: ao conversar no cinema, as pessoas o fazem em sussurros, tal qual estivessem numa igreja.

Num paralelo com as cerimônias sagradas, não por acaso, é possível afirmar que no cinema, os presentes são levados ao transe ajudados pela iluminação, pela decoração e por substâncias que alteram nossa percepção e nossa consciência (excesso de açúcar no refrigerante, guloseimas, cheiro de pipoca etc). O principal elemento, entretanto, ainda é o filme como obra, sob o comando do diretor-autor. Mas como meio, o comando do cinema está nas mãos do projetor (o profissional, não o aparelho). É ele quem dita, assim como um padre, um pastor, um xamã, o andamento de toda a celebração.

E, por fim, tem ele, o espírito santo de fotos em movimento, o corpo do salvador em rolos de celulose. Nessa configuração hipotética, o filme é o próprio messias. Enquanto entidade sagrada, a imagem fílmica se sobrepõe aos expectadores em tamanho, deixando-os menores; em controle, pois não há como manipular a exibição – ela é contínua e ininterrupta; em vulnerabilidade, pois tem origem nas costas de quem assiste. Numa sala de cinema, nada é maior ou mais interessante que o filme (tá, a não ser que você vá bem acompanhado, mas aí já é outra história).

Quando o filme acaba, as pessoas despertam do transe, o cotidiano retoma o controle da vida, a magia termina. Amém! Pelo menos até o próximo cine. De preferência um filmeco, por favor. Deixa que eu pago a pipoca.

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Faz terapia pra saber o que escrever na bio. Suas epifanias cinematográficas podem ser conferidas também no Helloimjackson.

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