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30 de julho de 2014

A má qualidade da mídia brasileira é reflexo de uma sociedade medíocre?

4 notícias caricatas que demonstram a péssima qualidade da mídia brasileira, mas será que a culpa é apenas dos veículos?

Confesso que algumas notícias veiculadas na mídia me deixam atônito. Nem tanto pela superficialidade inserida na manchete, mas pela exteriorização de uma face da sociedade contemporânea que assusta. Não que eu seja a personificação do Walter Kowalski, personagem interpretado por Clint Eastwood no filme Gran Torino, que se vê impotente ante à estagnação da economia dos Estados Unidos e do declínio do American Way of Life. Nem tampouco que eu ostente o pensamento criticado no filme Meia-noite em Paris de Woody Allen, segundo o qual a Belle Époque seja melhor que a atual. Não, nada disso.

A questão é que alguns fatos veiculados são tão inacreditáveis que beiram o sarcasmo, como se a qualquer momento fosse possível constatar que se trata se uma piada do site de humor G17. Mas não, as notícias são expostas em importantes sites como o da Folha de São Paulo, G1, R7 e Veja, portais de grande alcance nacional e “formadores de opinião” de considerável parcela da sociedade brasileira.

Para ilustrar o que estou falando, vejamos alguns exemplos que chegam a ser caricatos devido à insignificância do fato noticiado ou mesmo pela ausência de bom senso do entrevistado:

1) Ticiana Villas Boas tem medo de sair da realidade

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Os telespectadores do Jornal da Band se surpreenderam após a divulgação de entrevista da âncora Ticiana Villas Boas à Revista Veja. Nem tanto pelo “jornalismo” fofoqueiro e desnecessário usado na mesma, mas pela naturalidade demonstrada pela entrevistada em ostentar e revelar uma personalidade medíocre e elitista.

Ticiana chega a afirmar que se policia porque tem “medo de sair da realidade” e que, apesar de poder comprar uma bolsa “toda hora, toda semana”, não o faz. Veja faz questão de frisar que ela já era “bem-nascida e bem-sucedida” antes de conhecer o marido, o bilionário Joesley Batista, presidente da holding J&F Investimentos e dono da maior empresa processadora de proteína animal do mundo (detentora da marca Friboi). Gostaria eu que a Revista Veja, qualquer dia desses, explicasse o que seria uma pessoa “bem-nascida”.

2) Sophia Alckmin doa bolsa PRADA à Campanha do Agasalho

Link para a notícia.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2012 (PNAD) os indicadores sociais brasileiros revelam que o Brasil possui cerca de 15,7 milhões de pessoas pobres, aquelas com renda familiar per capita de até R$ 150 por mês. Além destes, ainda há aproximadamente 6,5 milhões de pessoas extremamente pobres, com renda familiar per capita de R$ 75 por mês. Face aos dados acima expostos, o relato à Revista Veja de Sophia Alckmin, filha do governador de São Paulo Geraldo Alckmin, torna-se uma afronta ao povo brasileiro.

Sophia afirmou que já doou bolsa Prada, roupas da Daslu e Juliana Jabour à Campanha do Agasalho porque os “beneficiados podem precisar de peças assim para uma entrevista de emprego, por exemplo”. Convém lembrá-la que o povo brasileiro precisa é de educação de qualidade, de qualificação profissional e de inclusão social, aspectos determinantes para a inserção do trabalhador no mercado de trabalho e melhoria de sua qualidade de vida e de sua família, coisas que não são conquistadas com o mero uso de uma roupa de grife.

3) O “politizado e seleto” grupo dos Yellow blocs

O recente vídeo postado pela TV Folha, do Folha de S. Paulo, realça um grupinho que promete abalar as estruturas das instituições do Estado brasileiro: são os yellow blocs. A narradora do vídeo ostenta um colar H. Stern e afirma ter vindo de Los Angeles especialmente para a festa. Entre uma fala e outra, a câmera faz questão de mirar acessórios como bolsas Gucci, Louis Vuitton, Carolina Herrera e apitos dourados usados como colar.

Uma das entrevistadas, que diz ser psicóloga, (bastante indignada) diz que não é “melhor que ninguém, mas que pagou mais caro”, conta que pagou “R$ 5.500 (à vista) e simplesmente não tem nada no camarote, entrou como qualquer pessoa que pagou R$ 300”. Outra, que declara ser atriz, alega que “o Brasil tem que aprender a mandar a Dilma tomar no cu”, porque isso é “a fúria do povo”, mas que o mais importante do protesto é ”o fundamento do pensar”. Uma advogada também aprova os xingamentos à Presidenta e diz que é a favor “porque é totalmente contra o governo do PT”.

As pessoas que aparecem na reportagem ecoam o discurso vazio e ignorante de grande parcela da elite brasileira, revelam que poder aquisitivo não é sinônimo de boa educação, consciência política e civismo.

4) Japoneses são flagrados recolhendo o próprio lixo no estádio

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Postagem no site Brasil Post destaca um torcedor japonês recolhendo – o próprio lixo – após jogo na Arena Pernambuco. A imagem do turista foi massivamente retuitada e os japoneses passaram a ser “seguidos” pelas câmeras nos jogos como se fossem parte de um experimento científico. O curioso é a forma como algo tão elementar como a responsabilidade de recolher o próprio lixo [clique para ler] ainda é motivo de estranheza para muitos dos brasileiros. Seria preciso uma Copa do Mundo para os brasileiros notarem o óbvio?

Matérias como essas nos fazem refletir se o problema repousa na má qualidade dos formadores de opinião da mídia brasileira ou se não passa de um reflexo da sociedade que consome esse serviço defeituoso. A qualidade dos meios de comunicação brasileiros já vem sendo questionada por alguns setores da sociedade há algum tempo, mas sem forças para alterar as estruturas de poder, concentrado nas mãos de poucos.

Nesse sentido, a revista inglesa The Economist publicou matéria [clique para ler] que questiona a hegemonia da Rede Globo no Brasil e insinua que seria hora da Presidente Dilma adotar uma “Lei de Meios”, semelhante a existente na Argentina. Entretanto, quaisquer tentativas de discussão acerca da regulação dos meios de comunicação, que certamente melhoraria a substância daquilo que é veiculado, vêm sendo duramente sabotadas pelos setores diretamente interessados na desregulação. Quem perde são os brasileiros, que são bombardeados com conteúdo de qualidade duvidosa e não desfrutam das vantagens que provêm da informação sadia.

E você, acredita ser necessário regular a mídia brasileira e melhorar o conteúdo daquilo que é transmitido aos telespectadores?

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Goiano, casado, formado em Gestão em Segurança Pública, graduado em Direito e especialista em Direito Público. Moro em Florianópolis, me interesso por política, história, cultura, viagens e gastronomia.

  • Pelech Jones

    Muito bom!

  • Ricardo Allexxandhry

    No final, o bonitinho que escreveu o artigo, usou como “bom exemplo” a regulamentação dos meios de comunicação pelo governo petista. Putz, chega desse esquerdismo tropical. Esse site é legal mas os vermelhinhos estragam tudo.

  • Lucas Soares

    exatamente a forma que enxergo. o povo é muito alienado, e é raro alguém que nota as atrocidades do dia a dia. a mídia brasileira, como a de grande parte do mundo, é medíocre. a regulamentação, de fato, pode trazer benefícios.

  • Thales Novaes

    Não penso que a regulação da mídia seria bom, sempre há o risco de “censurar algo em nome do bem coletivo”. Nesse caso, seria como tapar o sol com a peneira, já que o povo brasileiro aceita esse conteúdo midiático fútil e medíocre que todos os banaliza a violência.

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