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22 de janeiro de 2014

Homossexualismo x Homossexualidade: como a etimologia pode ajudar na propagação do preconceito?

Entre o homossexualismo e a homossexualidade, existiu a classificação equivocada de gays como doentes. Aqui a origem dessas palavras e como a etimologia pode colaborar com a homofobia.

Homossexualismo x Homossexualidade
Desde muito pequeno sempre fui muito apegado às palavras. Sempre. Talvez por isso tenho a escrita como principal ofício. Acredito muito na etimologia de cada unidade de nossa gramática e de nossa (rica) língua portuguesa. E é pensando nisso, na origem do conceito de cada palavra é que ensejo esta nova discussão. Por mais que haja controversa e que exista muita argumentação para ambos os lados, ainda assim é válida, levando em consideração a experiência testemunhal deste que escreve.

De volta ao passado: as primeiras manifestações homossexuais

Quadro amigosTudo começa não tão longe, há aproximadamente 125 mil anos, quando a espécie humana surgiu e logo foi tratando de evoluir. Aglomerado em sociedade, as primeiras manifestações homossexuais começaram a surgir. Um pouco mais a frente, por volta de 1750 a.C, as leis hititas, herdeiras do Código de Hammurabi, traziam o reconhecimento de uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo. Por volta de 420 a.C, foi a vez de Sócrates, o grande pensador e filósofo grego, afirmar que o sexo gay era mais inspirador e natural que o heterossexual. E não para por aí.

Entre os romanos, esse tipo de comportamento sempre esteve atrelado à conquista de conhecimento nas altas classes sociais, incluindo a política, mas sempre com algumas ressalvas: como na Grécia, em Roma aceitava-se relações de homens mais velhos com mais jovens, e repudiava-se relações de homens mais velhos entre si, atribuindo à primeira relação uma troca de experiências capaz de mudar o destino do mais jovem, e à segunda uma espécie de desgraça.

Na sequência, outros povos da antiguidade tratavam não só o assunto, mas a temática e todos seus correlatos como algo fácil de ser entendido, pois atrelavam parte dessas relações aos seus deuses. Até a chegada do cristianismo no mundo, a humanidade não enxergava o sexo apenas como “uma forma de procriação”, mas também como uma forma de autodescoberta e desfrute de prazeres.

Os primeiros passos em direção ao entendimento

Não adentrando no tópico da religião cristã – vamos deixar este debate para outra hora – daremos um pequeno salto na história. Em 1848, o psicólogo alemão Karl-Maria Kertbeny criou o termo homossexual para se referir aos indivíduos que mantinham relações sexuais com parceiros do mesmo sexo. A criação do nome tinha a principal função de classificar sistematicamente esse tipo de relação, fazendo com que termos pejorativos como pederasta, sodomia ou pederastia, à época tão difusos quanto era possível, parassem de ser relacionados ao assunto. A título de curiosidade, em sua busca por catalogar os tipos sexuais do ser humano, Kertbeny também foi o responsável por cunhar o termo heterossexual.

Pouco tempo depois, em 1897, o inglês Havelock Ellis publicou aquele que seria um dos primeiros livros dedicados à homossexualidade. À época, o nome que se dava ao fato de quem se relacionava e mantinha relações afetivas com pessoas do mesmo sexo era homossexualismo. Logo à frente, o tratamento indicado para a cura desses indivíduos – e também para a ninfomania feminina – era a lobotomia, tratamento criado pelo médico português António Egas Moniz, que também considerava a homossexualidade não só uma doença mental mas também uma perversão. O procedimento cortava as ligações entre os lobos frontais e o resto do cérebro do paciente. Por sua barbárie e invasão, deixou de ser praticada nos idos 1960.

O ismo deixou de ser usado, mas até hoje o encontramos por aí

Third World Gay Caucus

Parada de 1970 em São Francisco

Eis que então chegamos ao ano de 1973, ano em que a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade de seu rol de doenças mentais. Em 1993, foi retirada também da lista da Classificação Internacional de Doenças (a CID). E é aqui que começamos a verdadeira discussão desta conversa. Como pudemos observar, quando utilizamos a palavra homossexualismo até aqui, foi para demonstrar que em certo período da história ela significava doença.

O ismo, quando visto do ponto de visto etimológico, é um sufixo formador de substantivos abstratos. Dos mais diversos. Das mais variadas significâncias. Atrelada à palavra homossexual, atribuía o significado de uma doença ligada ao fato de ser gay ou “praticar” relações com indivíduos do mesmo sexo.

Por mais que hoje ainda existam pessoas e religiões que conectem uma coisa à outra, não há mais por que utilizar a palavra sabendo a carga semântica que ela carrega. Em meio às pesquisas que fiz para escrever este artigo, deparei-me com uma visão contrária ao assunto, mas que fez um levantamento que considero importante para o que direi à seguir. O texto discute a utilização do termo homossexualismo, como se essa questão fosse um mero “mimimi”, e aponta uma ‘simples’ solução. Se é feita a utilização do ismo para homossexual, basta que façam o contrário: utilizem o ismo para heterossexual. Mas já digo de antemão que não é esta a questão. Vai muito além.

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Oi, hoje resolvi ser gay. Amanhã acho que serei pansexual.

As pessoas, mais do que nunca, estão sempre em busca de rotular sexualmente o vizinho, o amigo, o irmão, aquela pessoa que está passando na rua e possui trejeitos e por aí vai. Nesse sentido, ouvimos opção sexual pra cá, lemos em matérias dos diversos veículos de comunicação do país opção sexual pra lá, assistimos aos grandiosos mestres (ironia modo off) Marco Feliciano e Silas Malafaia se apropriarem da expressão opção sexual em seus discursos patéticos, ad infinitum.

Marcos Feliciano

Marcos Feliciano, ex-presidente da Comissão dos Direitos Humanos

Os exemplos são inúmeros. Dentre as teorias do porquê uma pessoa é homossexual está a freudiana, que diz que a psique e “preferência” sexual são influenciadas pelo inconsciente, desde o útero, passando pela infância e se firmando na adolescência. No entanto, muitas dessas teorias se contradizem e pontuam, por exemplo, que pode acontecer algo na vida do indivíduo e ele então passar a se sentir atraído pelo sexo oposto ao que a vida inteira mantivera relações. Há, ainda, aqueles que dizem que nossa sexualidade está em nossos genes, sustentando que a sexualidade está ligada à representação genética, à predisposição gênica.

Vamos, no entanto, para um lado mais usual disso tudo. Na prática, não conhecemos tanta gente que oscila com notória discrepância entre uma e outra sexualidade. Então, em grande parte dos casos (sempre com o cuidado de não exagerar nem generalizar) há uma falha na afirmação de que exista uma opção sexual intrínseca à escolha do ser humano. Fora da literatura e do cinema – onde a licença poética e a brincadeira com o subjetivo, mesmo em tom sério, faz experimentações com essas questões – ninguém acorda num dia e começa a se sentir atraído por homens e/ou mulheres e se decide gay. Ou hetero. A questão é muito mais ampla e muito mais subjetiva do que esse tipo de pensamento pode trazer à tona.

O mundo das palavras é um universo gigantesco

A utilização de um termo pelo outro, nos dois casos em análise, é muito mais representativo na garantia de uma equidade de direitos e deveres, mesmo quando em momentos corriqueiros. Quando uma ficha do governo traz um campo com opção sexual, ao meu entendimento – e novamente trazendo para o debate toda a significância que as palavras têm – invalida toda uma causa e anos de luta por igualdade. É a mesma coisa quando abrimos um jornal e lemos o desserviço de uma informação errada, ainda que a intenção seja boa.

Os ismos de nossas palavras não agregam somente significado às doenças. Se fosse assim, não teríamos as palavras jornalismo, fanatismo, niilismo, liberalismo. Não há como concordar mais. O fato é que, como a palavra homossexualismo já foi atribuída a uma doença mental que presumia um tratamento infundado e recheado de sequelas, e que há relativo pouco tempo foi retirada do rol dos males tratados pela psiquiatria, não há como negar sua carga semântica, seu valor, o que ela representa e o que já representou. O mundo das palavras é um universo tão grande quanto o nosso, no que podemos inferir de seus significados e capacidade de interação. Portanto, acredito que seja mesquinha a insistência da utilização de um termo que já machucou a tantos e matou milhares. É disso que se trata.

É como se por homossexualismo, mesmo sem intenção, saltasse aos olhos uma história feroz, de muita dor e sofrimento e que, ao ler opção sexual, a vontade de mergulhar nessa história fosse um mero optar, um mero abraçar, uma aceitação consensual. E sabemos que não é. Podemos não entender toda parte da formação de cada ser, e podemos não entender a formação de nossa totalidade enquanto ser, mas sabemos que optar por qual sexo você se sente física e emocionalmente atraído está longe de ser uma decisão consciente.

Quando ela existe – e de fato sabemos que ela coexiste em nosso mundo, devido a inúmeros motivos, inclusive à não-aceitação própria – vemos uma tentativa árdua de se ser o que não é. E isso é triste. E causa angústia. E muita dor.

E a questão se redimiria contra esses pesos todos levantados por sua errônea interpretação com o uso da expressão orientação sexual. Afinal, ela indica o gênero (masculino e feminino) que uma pessoa se sente preferencialmente atraída física e/ou emocionalmente, sendo atribuída aos seres assexuais, bissexuais, heterossexuais, homossexuais ou pansexuais.

Da cena atual: vilões e mocinhos

A discussão acerca do assunto está nas pautas do nosso Congresso Nacional e avanços têm acontecido. No entanto, existe uma contracorrente que faz de tudo para revogar tanto os seres humanos pelo que eles são quanto trazerem de volta alguns dispositivos que a muito custo foram retirados do alcance da medicina psiquiátrica e dos tratamentos psicológicos. O Conselho Federal de Psicologia, que desde 1999 proíbe seus profissionais de colaborar com eventos e serviços que contribuam com o tratamento e cura para a homossexualidade, é um dos grandes aliados que a luta nacional tem a seu lado. Em 2013, na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados de Brasília tivemos o oposto: alguém que deveria contribuir para a construção e consolidação da igualdade mas dispara contra a decência, sessão após sessão.

Dos dicionários

Mesmo levando em consideração a nuance que as expressões possuem e que nada é tão objetivo quanto parece, não podemos deixar de salientar que os dicionários – aqui consultamos Houaiss, Aurélio, Michaelis e Priberam – trazem, unanimemente, o mesmo significado para homossexualismo: prática de atos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo. Mas, aqui fica minha ressalva: todos os significados adquiridos pelas palavras tem um contexto histórico, a qual foi revista neste artigo. Logo, por mais que conste de tal significado a palavra, desconsiderado totalmente o que já significou, a etimologia da palavra não nos deixa em dúvida.

Discutimos questões atuais, e principalmente sobre seres humanos. Resta-nos concluir, ou ainda tentar argumentar, se tudo isso se trata somente dos conceitos etimológicos destas expressões, de suas simples acepções e achismos ou se também estamos diante de uma falta de informação generalizada. Qual a sua opinião?

/ Para continuar a discussão:
Livro: Born To Be Gay – História da Homossexualidade, de William Naphy

Numa análise que se inicia ainda antes de Sodoma e Gomorra e que abarca culturas de todo o mundo, o autor apresenta-nos a forma como a homossexualidade era encarada por diferentes povos e culturas.

Vale tudo: Homossexualidade na antiguidade

Artigo interessante, que conta um pouco do histórico da homossexualidade da nossa sociedade.

Opção ou orientação sexual?

Texto excelente que trata da questão Opção ou Orientação Sexual, de Ana Luiza Ferraz.

O que a Psicologia tem a dizer sobre a homossexualidade?

Do psicólogo Pedro Sampaio, que tenta fazer uma análise panorâmica sobre a homossexualidade e sobre a cura gay.

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Goiano, casado, jornalista, apaixonado por cultura e concurseiro. Morou em Brasília, no Rio de Janeiro e atualmente mora em Goiânia. Gosta muito de debates, pois acredita que as discussões enriquecem a todos. Mais textos de Lucas no New Home.

  • Fagner Souza Machado

    Legal, inteligente. Parabéns. A língua portuguesa e suas origens. Surpreendente!

    • Lucas Soares

      Muito obrigado, Fagner. A nossa língua realmente nos reserva surpresas. E eu acredito muito no poder das palavras e significados, então não tem motivo para deixarmos que esse tipo de situação seja rotina e vire senso comum!

  • Edson

    Concordo que se utilize um termo que não carregue estigmas em sua acepção, principalmente por saber do contexto que originou a palavra homossexualismo e por haver outro termo que o substitui com maior relevância à causa, mas é importante destacar o que percebi, num artigo da NET, acerca dessa questão de sufixos, conforme o trecho que destaquei logo abaixo:
    “O sufixo de origem grega ‘ismo’, além de denotar “condição patológica”, é
    o mesmo que usamos para indicar “doutrina, escola, teoria ou princípio
    artístico, filosófico, político ou religioso”; “ato, prática ou
    resultado”; “peculiaridade”; “ação, conduta, hábito, ou qualidade
    característica” (Aurélio). Como se vê, o termo homossexualismo pode soar
    inocente e até positivo, como turismo, patriotismo, lirismo, escotismo
    etc. E o que dizer das conotações negativas de ruindade, fealdade,
    crueldade, calamidade, orfandade – “parentes” sufixais de
    homossexualidade?” (Disponível em: .)

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