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5 de maio de 2014

Por que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é tão apaixonante?

Hoje eu quero voltar sozinho: nem toda comédia romântica adolescente é igual.

Hoje eu quero voltar sozinho

Quando você pensa que o filme é sobre um rapaz cego, que está descobrindo o mundo dos relacionamentos e é homossexual, o primeiro sentimento que vem é pena. Imagina como deve ser terrível não enxergar, não saber como definir uma cor, não ver como são as pessoas ao seu redor e ainda por cima precisar lidar com o descobrimento de uma identidade sexual. É impossível não pensar em como o filme vai te fazer chorar.

Daniel Ribeiro tinha em mãos um roteiro que Lars Von Trier poderia causar uma devastação emocional em qualquer ser humano. E o filme vai por um caminho tão diferente, tão não clichê e tão inédito que você começa assistindo de uma forma e termina entregue ao universo particular de Leonardo, querendo participar dali e querendo que o filme não acabe nunca.

São inseridos elementos de fácil identificação, como a preguiça nas férias, as risadas entre os melhores amigos, o bullying. Mas Leonardo ainda é muito mais do que um personagem ou estereótipo. Aos poucos a pena ao redor do que ele é ou de como você pensa que ele pudesse ser desaparece. O filme é imprevisível e com uma história tão envolvente que você não tenta mais adivinhar a próxima cena.

Um mal tão característico de quem vê filmes ou seriados demais: algumas fórmulas prontas tornam-se previsíveis, graças à capacidade cognitiva da nossa cabeça de lembrar o que já vimos. Então, no final, um filme pode ter um roteiro original, personagens cativantes, e todos ingredientes bons. Mas se não for uma construção inédita, ele não te impressiona.

“Hoje eu quero voltar sozinho” segue uma linha que raramente vemos em filmes nacionais e que ouso dizer só ter visto em filmes de diretores europeus. O cinema nacional já passou por pornochanchadas, Mazzaropi’s, ações em morros de favelas, besteiróis e longas infantis contra o baixo astral demais. E nos últimos anos estamos vendo uma nova forma de cinema, que não vem de formatos teledramaturgos ou escrachados – embora muitos ainda sigam a fórmula previsível de humor.

Hoje eu quero voltar sozinho

Após ver o curta-metragem “Hoje eu não quero voltar sozinho”, você fica com vontade de mais, de querer saber o que acontece, de como termina. Ao entrar no cinema para ver o longa, você vai com alguma teoria formada. Que depois dos vinte minutos iniciais, desiste de encaixar no roteiro.

Inesperado é a palavra que melhor descreve o filme. Um casal mais velho, por volta dos 60 anos, assistia logo ao lado as mesmas cenas que eu. Do outro lado, tinha um casal gay. As reações do cinema inteiro eram as mesmas: positivas e espantadas. A trilha sonora não podia ser melhor, e as cenas se encaixam como se as músicas pertencessem ao filme e vice-versa.

Para produzir esse resultado, o trabalho de Daniel Ribeiro foi, com certeza, dobrado. Não se render a estereótipos e a personagens prontas é mais difícil do que construir um universo único. Por isso, temos a sensação de que esse filme PRECISA virar um seriado, ter uma sequência.

Cada personagem existe de maneira única, Leonardo (Guilherme Lobo) está cansado de ser vigiado. A dependência dele existe, mas é triplicada na cabeça de quem está ao seu redor. Entendemos isso a partir do momento em que a dó por ele ser cego se transforma na mesma revolta que ele tem das pessoas pensarem que ele precisa delas para absolutamente tudo.

Enquanto isso, Giovana (Tess Amorim) dá o tom humorado, a melhor amiga que nos seus 15 anos está ávida para viver um romance especial – e para ser sincero, quem nunca passou por isso? – e Gabriel (Fábio Audi) é o ponto chave, o ingrediente especial da história.

A direção de arte e fotografia conferem um tempero característico, que situa o filme em uma época contemporânea, sem elementos que datarão o material pra quem ver daqui a 10 anos. E isso é importante também. Assim como Frances Ha (2012) as situações que o longa explora são atemporais, enquanto Frances Ha é em preto e branco, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho usa cenários – casa da vó, passeios de bicicleta, a escola – que podem ser de 20 anos atrás sem problema algum.

O filme é uma retrospectiva de primeiros momentos: ter uma música dos dois, lembrar das primeiras inseguranças, dos primeiros encontros, do primeiro beijo. Então você não sai do cinema com dó, sai com vontade de quero mais!

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Podia discutir filmes, seriados e livros um dia inteiro, mas prefere discuti-los à noite, ouvindo suas playlists estranhas e improváveis. Seus traumas e indiretas resultantes dos relacionamentos passados viraram textos no Black Booze.

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