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20 de junho de 2014

Entre cartolas e marionetes: quem monta o cenário e escolhe o enredo na política?

O que está por trás das cortinas da política? O que acontece quando deixamos de atuar de maneira deliberativa na democracia? Chegou a hora de estimularmos nossa consciência crítica.

Política

A inocência tem se tornado uma das maiores “virtudes” da sociedade contemporânea. A história nos mostra que períodos de crise fazem aflorar nos seres humanos o instinto de sobrevivência. A busca por segurança faz com que soluções milagrosas sejam consideradas o antídoto para as mazelas que os assolam. Enganam-se, porém, aqueles que acreditam que as crises ocorrem sempre pelo acaso do destino e afetam todas do mesmo modo. Por este motivo é que indago: a educação, por si só, resolveria os problemas sociais, econômicos e culturais do globo? Existem aqueles que acreditam que sim.

No entanto, a recente crise econômica de 2008, originada pela bolha imobiliária dos EUA, mostra que ninguém está imune a vicissitudes. O mais interessante é que a crise não só é inevitável como também é estimulada. Fala-se muito em crise do petróleo, crise do capitalismo, crise da Previdência Social, crise do sistema de segurança pública. Muitas vezes, porém, antes mesmo do surgimento da crise já existe a solução para ela, como se a vacina já houvesse sido criada antes da existência do vírus. A reflexão que devemos fazer é sobre o que está por trás das cortinas. Quem monta o cenário? Quem escolhe o enredo?

A política do medo como estratégia econômica e política

Michael Moore, no premiado documentário Bowling for Columbine (Tiros em Columbine, no Brasil) expõe de forma curiosa como a política do medo tem sido usada de forma a gerar lucros para as grandes corporações e manter o poder político nas mãos de grandes empresários. O diretor debate a falsa segurança armamentista e violenta estimulada nos EUA, que é o país detentor de maior população carcerária do mundo e, nem por isso, é o menos violento.

O medo – definido pelo Dicionário Aurélio como “um sentimento de grande inquietação ante a noção de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça; susto, pavor, temor, terror” –, é um dos indutores de comportamento mais utilizados ao longo dos séculos. Nem mesmo os intelectuais e estudiosos estão protegidos do tecido social que engole os homens dito livres e neles aflora a insegurança, o medo da escassez e a necessidade de consumo do produto vendido pelo ventríloquo. Esse produto não se resume àquilo que é vendido em supermercados: pode ser uma ideia, uma ação, um estilo de vida. Por isso que apenas o acesso à educação não é o bastante para resguardar os homens do maniqueísmo daqueles que movem as cordas.

O antídoto é a consciência crítica, é a visão de mundo, que não é alcançada apenas pelas lições ensinadas na escola. Nesse contexto, é relevante a atuação da pessoa de forma deliberativa. Para o sociólogo Teubner Günther isso ocorre quando o indivíduo é cidadão e pessoa de direito. Cidadão ao ser autor de normas jurídicas e se posicionar criticamente em relação a elas. Pessoa de direito, quando se torna destinatário das normas que ajudou a elaborar. Por esse motivo, é latente a vulnerabilidade de democracias recentes como a brasileira.

Quando se fala em pessoa deliberativa no Brasil é perceptível que a dupla face desse conceito não existe em sua plenitude. O problema disso é que esse distanciamento do povo dos núcleos de onde emanam as leis e regulamentos faz com que haja um enfraquecimento do processo democrático. Essa ausência popular na determinação dos rumos políticos do Estado permite a manutenção de núcleos paralelos de poder. Estes não representam o povo e os interesses oriundos da vivência social, mas legitimam os interesses de minorias. Desse modo, as leis, que seriam a mais poderosa ferramenta de limitação do poder arbitrário e de garantia da igualdade material, acabam por revelar as paixões e caprichos de uma elite socialmente irresponsável.

A arte imita a vida e a vida imita a arte

A série norte-americana House of Cards, criada por Beau Willimon para o site Netflix, evidencia como o poder político e econômico vivem em um mutualismo perigoso, que prioriza os interesses de minorias e corroboram para a manutenção de certo status quo. Ingênuo, portanto, é o povo, que se deixa conduzir por manobras eleitoreiras, como os recentes ataques à Presidente Dilma, estimulados por uma elite rica, por parcela da mídia brasileira e por interesses de grupos econômicos e nações estrangeiras. Ou que acredita ser possível entregar seu destino aos governantes e esperar que estes conduzam suas vidas ao Olimpo.

Não é possível mostrar o caminho exato a ser seguido, o que é possível é afirmar que cada um deve se conhecer e conhecer a realidade factual e tirar suas próprias conclusões. Só não permita que os cartolas travestidos de mártires indiquem seu destino, tome as rédeas de sua vida e delibere sobre o que é melhor para seu futuro.

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Goiano, casado, formado em Gestão em Segurança Pública, graduado em Direito e especialista em Direito Público. Moro em Florianópolis, me interesso por política, história, cultura, viagens e gastronomia.

  • Lucas Soares

    o que mais dói, infelizmente, é perceber que uma grande parcela da sociedade nem percebe que está sendo manipulada. o que vemos por aí são meras reproduções do que se vê na grande mídia.

    as pessoas tem de aprender a relativizar o que lê, separar o joio do trigo e, então, começar a construção de um cenário diferente do atual: um cenário no qual as pessoas, de fato, produzam conscientemente suas opiniões baseadas na verdade factual. apenas.

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