Image
Voltar ao topo
Exibir menu
13 de fevereiro de 2014

Ela: quando o homem se apaixona pela tecnologia

Ela, o filme de Spike Jonze, apesar de se ambientar num futuro próximo, diz muito sobre como nossas relações se dão hoje. Qual seria a diferença entre a inteligência humana e a artificial?

Ela

Desde que o cinema é cinema, explora-se (ou, pelo menos, tenta-se) o futuro, o desconhecido. Carros voadores, viagens pelo espaço, guerras contra alienígenas. Não são tantas as histórias, porém, que mergulham no indivíduo, preocupando-se com o que mudará em seus sentimentos, seus hábitos, sua vida em sociedade. Filmes como A.I. Inteligência Artificial (2001) e O Homem Bicentenário (1999) viraram clássicos da Sessão da Tarde e, embora clichês, ainda amolecem o coração de todo tipo de público, pois por mais fictícios que sejam, lidam com sentimentos que são atemporais.

Responsável pelo igualmente emocionante Onde Vivem Os Monstros (2009), Spike Jonze mostra-nos – com a competência de um ótimo texto – um futuro não muito distante em Ela (2013), quando o desenvolvimento urbano e tecnológico dificulta ainda mais as relações interpessoais.

Joaquin Phoenix é Theodore, um cidadão comum e solitário, recém-divorciado, que perde as esperanças quanto a si mesmo após o fracasso do casamento. Num mundo não muito diferente do de hoje, opaco, onde as pessoas se relacionam mais com seus dispositivos pessoais do que com a própria família, surge o primeiro sistema operacional com inteligência artificial, o que permite que ele seja automaticamente aprimorado de acordo com a experiência entre máquina e ser humano. Neste momento, Scarlett Johansson aparece como a voz de Samantha, sistema operacional de Theodore. (Aliás, já falamos sobre a relação do homem com a tecnologia na ótima série Black Mirror, vale a leitura).

O que nos torna humanos?

A primeira sensação de Theodore e de nós, espectadores, é a de que embora extremamente inteligente, Samantha é apenas uma nova “capa” para uma tecnologia já conhecida. Sua sofisticação é tamanha que se torna impossível distinguir a fala de Samantha a de um humano. Eventualmente, Theo acaba se apaixonando (literalmente) pelo sistema. O mais curioso, no entanto, é a reciprocidade com que isso acontece: Samantha toma consciência de que não possui um corpo e sente-se frustrada com isso à medida que explora seus aparentemente verídicos sentimentos por Theodore. É também em relação a isso que o filme levanta uma discussão deveras interessante, principalmente voltada para aqueles que podem pensar “nossa, mas quanta bobagem!”: Na realidade abordada, qual seria a diferença entre a inteligência humana e a artificial, se nossos cérebros não são mais do que máquinas cheias de algoritmos? (Ah, mas é claro que a diferença seriam os nossos sentimentos!) Mas e quem garante que existiria, de fato, qualquer diferença entre o sentimento humano e o da máquina, posto que nossos “sentimentos” também estão vinculados à matemática do cérebro?

Ela

Não podemos deixar de voltar a atenção ao estilo e ao figurino dos personagens. Theodore, por exemplo, não só usa roupas que remetem aos anos 40 como também traz no rosto um bigode e um par de óculos retrô. Pode ser que estes detalhes tenham sido inseridos apenas para demonstrar que a moda continuaria andando em círculos, ou – teoria mais palpável – são responsáveis por um dos maiores questionamentos filosóficos extraídos do filme: estamos felizes com os avanços urbano e tecnológico desenfreados? O figurino e detalhes de cenário trazem um clima nostálgico; não individual, mas coletivo. Uma geração que, embora agarrada aos itens tecnológicos “de primeira necessidade”, sabe – consciente ou inconscientemente – que não é feliz de tal forma, sente necessidade de restabelecer relações com o passado. Inclusive, esta abordagem é bem mais interessante que a de muitos outros filmes de ficção científica, que ora propõem um futuro caótico, ora minimalista.

Spike consegue abordar o tema tão singelamente que não se encontra hipocrisia de forma alguma; em nenhum momento a tecnologia e o avanço são tratados como um mal absoluto, mas questiona-se, de forma sutil, muitas das coisas que nós nos questionamos atualmente. Com desfecho comovente, Ela é uma história conduzida sabiamente e com serenidade, podendo ser mera comediazinha romântica para uns ou, para outros, uma bela e profunda metáfora para a sociedade em que vivemos, e para o rumo duvidoso que tomamos não só como seres inteligentes, mas como seres cheios de sentimentos que somos.

O filme estreia hoje (14) em circuito nacional. Vale cada segundo.

Agora queremos saber:

Qual será o futuro dos relacionamentos? Você acha que é mesmo possível se apaixonar por uma inteligência artificial? Conta pra gente ali nos comentários.

 

/ Gostou deste post? Então experimente nossa newsletter semanal. Assine nossa newsletter.

/

Escreve sobre TV e cinema, principalmente suspenses, dramas e ficções. Não tem um gato; não gosta de café ou Tarantino, mas adora cozinhar, ler e desenhar.

  • http://twitter.com/gabsciolini Gabriela

    Sensacional o texto! :D

    E sobre a pergunta final… acredito que no mundo que vivemos, isso não é tão estranho assim, tá, ninguém conversa com um sistema operacional – nao que eu saiba haha – mas, pra quem faz amizade virtual sem saber realmente quem está por trás, sem ter algum contato visual/físico, e mesmo assim mantém uma relação de confiança, amizade, etc.. não acho impossível criar algum tipo de afeto pelo sistema. Se vier a acontecer, vai ser muito loco hahahahaha

    • Danilo Novais

      Siri está aí para provar que sim, conversamos com sistemas operacionais hahaha. Acho bem possível essa mecânica e tenho medo de se tornar real.

      • http://twitter.com/gabsciolini Gabriela

        um problema que eu vejo é: o sistema (no caso era a samantha) tinha potencial pra amar14235253[..]4242345 pessoas ao mesmo tempo. :(

    • Gabriel Lopes

      Valeu, Gabriela! Fico feliz que tenhas gostado do texto :3 O lindo do filme é justamente que por mais bizarro que possa parecer o enredo, tudo ali é metáfora/crítica/reflexão sobre o presente

  • Fabio Allves

    Eu me apaixonaria fácil por Samantha…

  • Pingback: 10 fashion films incríveis que você deveria assistir - Cult Pop Show()

/CultPopShow © 2008-2014. Todos os direitos reservados.   |   Agência WCK