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24 de junho de 2014

O cerco do sexo no entretenimento

Na televisão ou no cinema, sexo tem sido um assunto abordado com frequência. Mas será que foi sempre assim?

O mundo do entretenimento nunca esteve tão livre como hoje. Não me refiro à programação da televisão aberta brasileira – que considera um “selinho” gay um megaevento digno de milhares de #hashtags em redes sociais e engajamento de adolescentes que acabaram de sair do armário a deputados militantes da causa LGBT (e não considero isto ruim não, mas é papo para outra hora) – mas sim à maior parte das produções exibidas no cinema e no circuito de emissoras fechadas ao redor do mundo.

Sexo é algo que deixa algumas pessoas desconfortáveis, seja pela forma da orientação recebida em casa e escolas, seja por conta do empirismo a que a sociedade é submetida, seja por traumas ou assuntos mal resolvidos. A questão existe, e não é só você que pensa assim.

Sexo enquanto arte ou porn enquanto arte?

Nos primeiros minutos do filme Anticristo (2009, Lars Von Trier), nos é oferecida uma das cenas mais cruas de sexo do cinema contemporâneo – e mais bonitas também, diga-se de passagem. Na pele de seus personagens, Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, nus, são expostos em cinco segundos de sexo explícito. Isso mesmo: em slow-motion, um close de um pênis adentrando uma vagina – em cinco segundos – é exibido à audiência. E mesmo que a gente saiba que a cena foi filmada com dublês da indústria pornô, estamos falando de sexo. Explícito. E não digestível para uma parcela da sociedade.

O tema sexo sempre foi uma forma de tabu para as diversas plataformas do entretenimento. E não diferente, o assunto foi tratado nas telonas. Como bem salientado por este artigo do Salada de Cinema, o cinema pornô hoje é muito marginalizado por conta desse legado, de como o sexo foi tratado ao longo dos anos. Nos idos de 1905, a exibição de um filme que contivesse cenas de sexo era limitada a um público específico, com entradas baratas e distribuição quase nula: por consequência, os títulos eram fadados ao fracasso. Por isso, hoje a produção de filmes pornográficos possui, em sua maioria, a estigmatização do trash, de baixa qualidade, da marginalização.

O receio de admitir que sexo é normal para todos nós

Este fato contribuiu para a sociedade contemporânea desenvolver um tipo de medo de falar de sexo. Ou, pelo menos, de se sentirem coagidos, pela moral, a não falarem do assunto ou a considerá-lo subversivo. É difícil acreditar que uma campanha publicitária que tem como foco a masturbação feminina – Campanha “Eu me amo”, para o Dia dos Namorados, da Duloren – cause tamanha estranheza à parte de seu público-alvo. Mais ainda, é a realidade de que aquelas que supostamente deveriam – por quê não? – incentivá-las a se conhecer, a se tocar, a se autosatisfazer, estarem também nas estatísticas desta estranheza. É ridículo.

No artigo “Game of Thrones mostra como ainda somos puritanos”, do blog Papo de Homem, sobre a quantidade de sexo exibido em GoT, observei que eles tiveram a mesma percepção que eu: com poucas exceções à regra, somos ainda muito conservadores quando estamos falando de relações sexuais. Conforme o infográfico abaixo, é possível notar que a série exibe muito mais gente pelada – bundas e peitos, em sua maioria – do que sexo propriamente dito. E, mesmo assim, de acordo com a compilação feita pelo Huffington Post, dentre nudez e sexo, são “meros” 16 minutos ao longo de toda a produção. Considerando que a maior parte das séries exibidas pela HBO possuem este apelo sexual – Hung, Girls, True Blood, Boardwalk Empire – não considero o número absurdo. De jeito algum.

Game of Thrones Sex

Sexo entre mulheres: in. Sexo entre homens: out. Por quê?

E até aqui falando sobre, em maior parte, de sexo heterossexual. No entanto, uma das queridinhas da atualidade, Orange is the New Black, abusa das cenas de sexo lésbico, sem o pudor que muitas produções utilizariam. Em quase todas, essas cenas são criadas apenas para a interpretação do público. Esta é, sem dúvidas, uma das maiores liberdades que a Netflix dá às suas produções: a de poder exibir o que se quer e como se quer. Ainda neste sentido, podemos falar sobre cinema e o recente longa – tão comentado mundo afora – Azul É A Cor Mais Quente. As cenas de sexo são realmente de tirar o fôlego e o diretor, à época, foi acusado por uma das atrizes de desgaste emocional, ao ter de refilmar algumas das cenas mais de vinte vezes.

Com isso em mente, eu lanço a pergunta: quanto se ouviu falar, na mesma época, do “concorrente” masculino de Azul, Um Estranho no Lago? Não é que não tenha sido comentado ou midiatizado, mas o sexo gay, quando praticado por mulheres no cinema, parece criar uma expectativa maior e consequente aumento da bilheteria. O motivo principal, penso, é que parte do universo heterossexual masculino tem, em seu imaginário e como fetiche, a possibilidade do sexo entre mulheres como algo excitante, ou, falando mais popularmente, algo que dá tesão. Contudo, o que se vê quando a película retrata o sexo entre homens? Repulsa é apenas um exemplo do encontrado por aí.

Azul é a cor mais quente (2013)

Azul é a cor mais quente (2013)

Como uma cena de sexo gay de um título nacional pode carecer de um prévio aviso para aquele que, “despreparado” para assistir àquele filme, se surpreenda com minutos de tórrido romance homoafetivo? Fico me perguntando se aqui no Brasil, um dos países mais plurais do mundo, é realmente necessário algum tipo de cuidado especial para que, não sei, uma pessoa de repente enlouqueça ao assistir Wagner Moura transando com outro homem? Pois bem. Praia do Futuro foi recebido assim em um cinema nacional.

Romances gays nas produções culturais: contracultura x empirismo

O irônico é que o fato não é novo, e esta é a mesma sociedade ocidental que negou o Oscar de Melhor Filme ao também homossexual romance Brokeback Mountain, em 2005, nos Estados Unidos. O filme foi banido em diversos lugares, por ter os protagonistas Jake Gyllenhaal e Heath Ledger vivendo um casal cowboy gay. O filme foi censurado na China, no Oriente Médio, na Itália e outros lugares, inclusive partes do próprio Estados Unidos. Ainda assim, por mérito, claro, Ang Lee recebeu os prêmios de Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora com a película.

Um Estranho no Lago (2013)

Um Estranho no Lago (2013)

Religião versus sexo

Como não podia deixar de fazer menção, as igrejas são um dos grandes vetores desfavoráveis à livre discussão do sexo e ao livre trânsito do assunto nos meios de entretenimento. Sem aprofundar a temática, é possível inferir que a religião a partir de sua influência política, social e ideológica, é responsável por construir um dos mais fortes cercos ao redor do tema. Porém, é sensato dizer, também, que esta mesma influência “tira uma folga” quando, por exemplo, a imagem da mulher é hiper sexualizada numa propaganda de cerveja.

O que leva a sociedade a preferir mudar de assunto quando a bola da vez é o sexo? Por que as pessoas preferem utilizar metáforas ou analogias a falarem abertamente sobre relações sexuais? Conte sua opinião!

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Goiano, casado, jornalista, apaixonado por cultura e concurseiro. Morou em Brasília, no Rio de Janeiro e atualmente mora em Goiânia. Gosta muito de debates, pois acredita que as discussões enriquecem a todos. Mais textos de Lucas no New Home.

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