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7 de maio de 2014

A catarse e o spoiler

Um spoiler não é "só" um spoiler, é a falta de consideração com o próximo e a individualização cada vez mais latente no ser humano. Você não é o rei que controla a informação. Já pensou nisso?

Joffrey Baratheon

ATENÇÃO. O texto a seguir contém spoilers sobre o episódio 4×02 de Game of Thrones.

Seria catártico. Eu já sabia que a experiência do segundo episódio da quarta temporada de Game of Thrones causaria um sentimento de prazer tão grande no grande público que se aproximaria da histeria coletiva. Seria o exato oposto das reações que ocorreram após o nono episódio da terceira temporada. Joffrey Baratheon, o déspota mirim de Westeros, finalmente encontraria o seu fim.

Programei-me pra assistir com pessoas que eu sabia que sentiriam a mesma coisa que eu senti quando li a cena nos livros. Queria que elas tivessem a experiência completa, a comemoração inicial e a seguinte percepção de que Joffrey nada mais era do que um menino de 13 anos, engasgando e sufocando enquanto era assistido pela própria mãe.

Grande parte da experiência com George R. R. Martin, entretanto, vem da surpresa e do inesperado. Lembro do meu sentimento, por exemplo, quando Daenerys – a.k.a. Khaleesi – vendeu um dos dragões pra comprar os 10 mil imaculados. Por vinte minutos larguei o meu livro de lado, jurando nunca mais voltar a ler, só pra ser aliviado em seguida com a ordem épica em valiriano: Dracarys.

Eu sou o rei!”

Porém, no segundo capítulo da quarta temporada, muita gente foi privada dessa experiência. Levados por uma sensação de alívio por finalmente verem os “mocinhos” serem vingados, os fãs foram aos seus perfis no facebook comemorar a vitória como semanalmente fazem os fanáticos por futebol (de quem a maioria dessas pessoas também reclamam). Sob a justificativa de que “já passou na TV, então não é mais spoiler”, os engraçadinhos esqueceram (ou simplesmente ignoraram) que a HBO é um canal fechado e que não é todo mundo que tem acesso. Esquecem que não são todos que conseguem estar na frente da televisão na hora exata da série, e que logo em seguida, com uma hora de diferença, os episódios são reprisados pra’queles que perderam a oportunidade poderem recuperar. Encerraram com chave de ouro com alegações como “Eu tenho HBO, se você não tem, foda-se.” “Eu não tenho problemas com spoilers, se você tem, foda-se.” “Eu já li os livros, se você não leu, foda-se.”

É só um spoiler, é só uma série, é só um episódio. Mas é “só” o meu direito de decidir se quero ou não saber o que aconteceu no episódio. É “só” o meu direito de não ter a minha experiência midiática cortada pela metade. É “só” o meu direito de escolha. Em uma análise um pouquinho mais profunda, esse comportamento denota o egocentrismo dos privilegiados. No fim das contas, é “só um spoiler”, mas que representa muito mais do que isso. É um spoiler que mostra a falta de consideração com o próximo e a individualização cada vez mais latente no ser humano. Esquecem-se, entretanto, que ao agirem assim compartilham da filosofia do próprio Joffrey: “Eu sou o rei,” você não, então foda-se.

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Estudou comunicação, mas queria ser engenheiro. Fala palavrão pra caramba e vive num conflito interno entre a própria inaptidão social e a necessidade de se conectar com pessoas.

  • http://facebook.com/cjmontag Cassio Montagnani

    [SPOILER] Não custa nada as pessoas avisarem que a informação a seguir é um spoiler [/SPOILER]

  • Andrea Capél

    Eu sou 150% contra spoilers porque eu gosto do impacto completo, seja de livros, filmes ou seriados. Tanto que até quando as pessoas PEDEM pra que eu conte o que acontece, eu evito porque acho que atrapalha a experiência e eu quero que todos sintam o que eu senti.

  • Luiz Gustavo O. Xavier

    Interessante o seu ponto de vista, mas se formos analisar o efeito da catarse dentro da literatura, o spoiler não deveria ser um estraga-prazeres para quem lê/assiste. As tragédias gregas eram de conhecimento público, pois todas eram montadas em cima de mitos da tradição. Não havia a questão de “originalidade ficcional” na Grécia Antiga, e o efeito catártico do público sempre existia na encenação das peças, tanto que elas eram constantemente representadas para uma grande audiência.

    Saber ou não o que vai acontecer em seguida na história não significa necessariamente a privação do efeito catártico. Saber que o Joffrey morreria no segundo episódio não interfere na sensação de alívio ou na satisfação dos fãs por verem os mocinhos serem vingados. Mesmo para quem leu os livros, acredito que o efeito catártico volta a ser repetido ao assistir a série, pois uma coisa é imaginar o que acontece, outra é vê-las acontecendo diante de seus olhos. O casamento vermelho foi muito mais brutal na série do que nos livros, e chocou até mesmo quem já sabia o que aconteceria naquele momento.

    O que eu quero dizer com isso é que o spoiler não interfere no efeito catártico. Eu posso assistir a cena do casamento vermelho mil vezes e sempre vou continuar me chocando com os acontecimentos, não porque é simplesmente horrível, mas pelo modo como os acontecimentos levaram àquela tragédia que constituem na maestria narrativa de George R. R. Martin

    O importante não é saber quem morre ou quem vive, mas sim perceber como a narrativa é construída para chegar ao momento dos “plot twists”. Tudo é bem construído, não há falhas narrativas, e é isso que causa o efeito de espanto no leitor/espectador, do mesmo modo como a cena final de Édipo Rei (e das tragédias em geral, principalmente as gregas e as de Shakespeare) continua sempre chocante, mesmo nos dias atuais.

    O importante não é você saber quem vai morrer ou não, mas como isso acontece, como a narrativa leva os acontecimentos até aquele momento culminante de reviravolta trágica. É claro que se você já tiver lido os livros ou souber da história o efeito catártico não será tão expressivo quanto se você não soubesse de nada e fosse pego de surpresa, mas ainda assim, ele existe. E sempre irá aparecer mesmo que você já tenha conhecimento dos fatos.

    O efeito catártico é construído através da experiência de leitura (ou no caso do teatro, do cinema e da tv, de expectativa). Muitos blogs e sites comentam o enredo de Game of Thrones, até quem não acompanha a série e/ou os livros conhece o enredo, mas uma coisa é saber porque ouviu alguém falar sobre, e outra é experimentar na pele, lendo os livros ou assistindo os episódios. A catarse estará sempre lá. Não tem como evitá-la.

    • Andrea Capél

      Concordo que o que importa é a forma como a narrativa é construída, mas eu, por exemplo, não tive oportunidade de ler os livros de Game of Thrones ainda, e gosto de ser pega completamente de surpresa. Eu nunca tinha ouvido falar da cena do casamento vermelho, e quando finalmente assisti, fiquei em choque por dias! E isso é muito bacana. Entendo que as pessoas queiram comentar sobre os episódios, é normal, mas elas poderiam ter um pouco mais de consideração com quem, como eu, gosta de ficar completamente no escuro em relação às histórias. Não gosto de saber que fulano ou beltrano morrem porque eu já assisto com outros olhos, sabendo que aquele personagem em breve não vai existir. Se eu puder experimentar a catarse no maior grau possível, é muito melhor! :)

      • Luiz Gustavo O. Xavier

        Eu concordo com você. Também não li os livros (ainda) e comecei a acompanhar a série quando começou a segunda temporada. Fiquei três dias de luto depois do casamento vermelho, e Game of Thrones estourou depois disso, né. Em todos os lados da internet as pessoas estão comentando sobre a série. Acabei lendo alguns spoilers involuntariamente (às vezes vou assistir um vídeo no youtube e quando olho nos comentários, bang, spoiler, e aí já é tarde demais). É chato? É, reconheço que sim. Mas já foi. Não tem choro. Não vale o choro.

        O efeito emocional não vai ser tão intenso depois que você sabe o que vai acontecer, mas tem gente que não aceita isso muito bem, e às vezes desistem de acompanhar a série, de ler o livro, de ver o filme, ou de experimentar ler/assistir o que quer que seja por causa de um spoiler lido involuntariamente. Acredito que as pessoas tem que relevar isso um pouco (pode ter um momento de raiva, eu com certeza tive, mas a vida continua, e a história também). E daí que você sabe que personagem x vai morrer, você sabe o que vai levar a narrativa a matá-lo? Isso é o mais interessante. Pelo menos eu acho, né. O efeito catártico é maravilhoso mas só a narrativa bem construída é capaz de criá-lo.

  • Davi Cardoso

    Spoilers só atrapalham quando quem conta a história é incapaz de criar um desenrolar interessante. Já vi muito filme sabendo o final e graças a boa construção do pré-climax (citado no spoiler) não me senti prejudicado. Pra mim o spoiler pode tanto ser algo que acrescenta com expectativa quanto algo que fode tudo. Mas o segundo só acontece por culpa de “contadores” ruins. ;)

  • Gustavo Motta

    Essa imagem de capa é pura ironia, então?

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