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17 de fevereiro de 2014

O que os blogs de street style têm a ver com a glamourização da moda?

Os blogs de street style dizem muito sobre a glamourização da moda, além de sustentar a turma do "eu me acho" definida em pesquisas geracionais. Aqui a relação entre eles.

A fotografia de street style – similar à que conhecemos hoje – surgiu numa era ainda analógica, mais especificamente na década de 1970, quando Bill Cunningham, que trabalhava com jornalismo de moda no Women’s Wear Daily, começou a fotografar a moda das ruas de Nova Iorque. Ao registrar diariamente pessoas aleatórias, Bill Cunningham tinha o propósito de captar roupas que inspirassem estilos genuínos e personalidades singulares. Hoje são muitos os fotógrafos que tentam reproduzir os feitos de Bill, mas aparentemente esse ideal de fotografia tem se perdido.

O responsável pela ascensão dos blogs de street style em tempos digitais é o fotógrafo Scott Schuman, criador do blog The Sartorialist. Schuman, após quinze anos acumulando experiência em moda, começou a sentir-se incomodado com o fato de que as roupas que via nos desfiles eram totalmente diferentes das roupas que via nas ruas e, através desse incômodo – gerado pela moda conceitual x moda comercial –, surgiu a ideia de fotografar pessoas que tivessem em seu modo de vestir uma composição de peças interessantes. Com o tempo, o blog cresceu e passou a captar não apenas pessoas aleatórias nas ruas, mas também fashionistas e editores de moda. O que era um hobby, virou profissão. Mas o foco deixou de ser somente apresentar estilos autênticos, para também mostrar tendências e pessoas influentes do mercado.

Naturalmente, com a demanda vem a oferta. É expressivo o número de blogs de street style que surgiu a partir de 2006 (entre os mais famosos estão The Face Hunter, Garance Doré, Hanneli, Jak and Jil, Stockholm Street Style, Altamira, Tommy Ton e Style Clicker), formando uma lista quase infinita, sendo que boa parte são contratados por marcas para abastecer seus sites e redes sociais. E como se a quantidade exuberante não fosse o suficiente, surgiu também outras modalidades similares a esta, como o look do dia.

E assim, num evento voltado à moda, uma pessoa que quer ter seus 15 minutos de fama tenta se vestir da maneira mais chamativa possível, e é nesse ponto em que a autenticidade se perde. Em entrevista recente ao FFW, a blogueira brasileira Thássia Naves comenta algo que reflete muito bem essa situação:

O lado ruim é que sou uma blogueira de moda, então sempre tenho que estar bem arrumada. Até no dia que estou meio mal tenho que andar bem.”

Uma vez que você veste algo para chamar atenção, você deixa de fazer isso para si mesmo e tão pouco usufrui de seu estilo pessoal. Será que vale mesmo a pena vestir-se de modo que não reflita quem você é ou o que você de fato gosta, apenas pelos cliques ou likes? Aparentemente sim. Hoje, vestir-se para ser visto virou profissão. Podemos tomar como exemplo blogueiros como Tavi Gevinson, Susie Lau e Bryanboy, que ganharam seu reconhecimento na moda, escrevendo sobre o cotidiano e o que estavam vestindo, por conta dos inúmeros acessos que seus blogs recebem diariamente.

A jornalista Suzy Menkes da T Magazine (do The New York Times), escreveu uma crítica a estes novos hábitos da moda atual, descritos por ela como o Circo da Moda. Circo porque a busca pela fama acabou tornando-se algo assíduo. É como se um espetáculo fosse formado, no qual as pessoas submetem a vestimenta em troca dos holofotes e aplausos. Em seu texto, Suzy explica que há uma linha tênue entre estilo e exibicionismo, sendo que o estilo faz com que você seja único e o exibicionismo cria fantasias de pavão com o objetivo de serem aceitas no meio da moda. A aceitação vem mais pela popularidade do que por qualquer outra coisa:

Essas pessoas são conhecidas por suas páginas no Facebook, por seus blogs e pelo fato de que Scott Schuman as imortalizou em alguma fotografia no The Sartorialist.”

Bryanboy, Susie Lau e Tavi Gevinson

Os blogueiros Bryanboy, Susie Lau e Tavi Gevinson

Outro ponto abordado por Suzy é o fato de que a partir do momento em que as marcas viram nos blogs um grande potencial de publicidade, as opiniões passaram a se basear em presentes e dinheiro. Embora não se pode generalizar, porque há sim pessoas sérias que escrevem apenas sobre os produtos que as agradam e que cuidam com carinho da linha editorial de seus blogs, mas estas são, infelizmente, uma parcela bem pequena. E é a partir disso que o número de blogs que possuem pouco conteúdo interessante aumenta, escritos por pessoas que pensam que estão mesmo tratando assuntos de moda, quando na verdade estão falando do próprio umbigo. Não se trata mais de algo voltado ao leitor, mas ainda assim, há quem adore acompanhar tais feeds, mesmo sendo 99% irrelevantes.

A turma do “eu me acho”

Falar sobre si mesmo é uma das coisas que a nossa geração mais gosta. Não à toa, selfie foi eleita a palavra do ano pelo dicionário Oxford em 2013, e a revista Time fez uma edição dedicada à turma do “eu me acho”, intitulada Me Me Me Generation; o que confirma ainda mais a necessidade de autoexposição. Crescemos assistindo a reality shows e fomos expostos à uma cultura de valorização da autoestima, mas isto não é novidade.

Porém, é curioso (ou não) ver perfis no Instagram com incontáveis selfies ou looks do dia, assistir a um vídeo de um cara gastando horrores na balada para “agregar valor” à sua imagem. Não é preciso ler pesquisas geracionais para entender que a ostentação e o narcisismo são características marcantes do agora.

Estes fatos nos leva à nossa conclusão. A moda é glamourizada por muita gente. Um meio movido pelo consumo e exibicionismo, onde a regra é possuir aparência impecável. Antes soubessem que o glamour está bem distante do dia a dia dos profissionais que trabalham duro para fechar edições de revista, promover semanas de moda, eventos de divulgação, produções de editoriais e tantos outros. A imagem de quem leva a moda a sério é distorcida pela maioria dos blogs do gênero, que priorizam apenas seus mimos e looks. Tudo é uma réplica. Mais do mesmo. E isso é lamentável.

Mas é importante salientar também que esse glamour foi criado pela própria moda, que sempre alimentou o fascínio dos que estavam de fora. A internet, querendo ou não, acabou abrindo espaço para que qualquer um pudesse dar pitacos, já que agora é possível acompanhar em tempo real desfiles via vídeo ou fotos em alta qualidade. Talvez a maneira como isto se dá é que não é a mais legal. Os blogs poderiam se profissionalizar, mostrar menos looks do dia e levantar questões pertinentes não só a um indivíduo, mas à sociedade como um todo, assim democratizando o mercado de maneira mais responsável, competente e equiparada a grandes veículos.

E você, o que acha de tudo isso?

 

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Apaixonada por séries, arquitetura, moda e design. Escreve aqui sobre o que mais gosta, transitando entre estes tópicos. Seus textos são uma mistura entre o novo e o clássico.

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