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19 de maio de 2014

Atualizar ou não atualizar?

Paula Secco usou verba do governo para atualizar a obra do Machado de Assis. Mas, e agora? O que será feito disso?

É curioso que quando se fala em literatura no Brasil, os argumentos são sempre tendenciosos, buscando favorecer o que se conhece como “boa literatura” ou “como bom português”. O maior motivo para que isso aconteça é que a gente ainda vive em um país de não-leitores, mas que sabe (só porque ouviu falar) que conta com grandes escritores em seu portfólio literário.

Recentemente, todos ficaram sabendo da escritora Patrícia Secco, que ousou – naquele sentido mais ameaçador – a atualizar algumas palavras da obra “O Alienista” (1882), de Machado de Assis. Depois do bombardeio nas redes sociais, ficou no ar a inevitável pergunta: depois do trabalho realizado, o que será feito dele?

Mudar uma obra literária é um sacrilégio

De um lado, se trabalharmos com esse ponto de vista, muito temos a dizer, uma vez que a obra literária é sim uma obra de arte e, por sua vez, cada palavra, cada expressão tem a ver com a intencionalidade do autor.

Não se tratam apenas de escolhas temporais, mas de estilo também.

Quando vemos uma pintura, por exemplo, ninguém vai até lá modificar as cores ou as formas, pois há a clara noção de que incorreríamos no prejuízo do sentido da ideia que o artista quis transmitir. As pessoas pensam que texto é só conteúdo, mas é forma também.

O que se faz com o que se fez

Por outro lado, o brasileiro é sempre o que tem os piores índices de leitura mundiais, já reparou? Brasileiro não lê Paulo Coelho – e ainda o critica (santo preconceito!) – que dirá Machado de Assis!

O designer gráfico premiado Gustavo Piqueira comenta que é “totalmente a favor de traduções mais contemporâneas de obras clássicas — acho importante o lançamento de versões para serem lidas por um público mais amplo, coexistindo com as edições integrais, igualmente necessárias. Mas há uma enorme diferença entre uma tradução contemporânea, visando um público que precisa de uma certa tradução cultural ou vocabular para penetrar determinada obra, e versões que uniformizam a moral (…) que eliminam tudo aquilo que seja estranho à sensibilidade contemporânea.”

Na verdade o fato de se ter contato com obras clássicas atualizadas é bom. Porque aproxima leitores a esse tipo de texto. A própria autora que vos escreve começou a ler através de livros que eram adaptações de grandes clássicos, como o “Dom Quixote de La Mancha”. O que me fez, no futuro, buscar ler a obra original.

O grande problema é o que se vai fazer com o que já foi feito. Vão trocar a versão do Machado pela da Patrícia? É só isso que os alunos vão conhecer nas escolas? O grande medo dessa versão atualizada da obra não é o que foi feito dela, a bem dizer, mas o que dela vai ser feito, e o que do Machado vão fazer.

/ Para saber mais:
Machado de Assis original na estante

O Alienista, Machado de Assis

Pra você que, assim como nós, curte um Machado de Assis original. É só clicar!

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Formada em Letras, pós em Negócios de Moda, faz da vida uma longa história que vai contando pelos lugares que passa. Este blog faz parte disso.

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