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28 de novembro de 2013

Antes do Amanhecer: uma análise da trilogia – Parte 1

A trilogia Antes do Amanhecer veio com a proposta de ruptura dos filmes românticos, sem diálogos fantasiosos ou idealização do casal perfeito. Uma importante contribuição para o gênero.

O casal que se conheceu em 1995, Celine e Jesse, finalmente chegou ao ápice de sua relação com o último filme da trilogia, chamado Antes da Meia-noite. Seus antecedentes, Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-sol, são referência para os fãs do gênero romântico-dramático no cinema, pois retratam a paixão de um casal de forma incomum, se comparada ao costumeiro “felizes para sempre” que permeia as telonas. Dirigida por Richard Linklater, a trilogia contou com Julie Delpy (Celine) e Ethan Hawke (Jesse), como atores principais e na produção do roteiro dos dois últimos filmes, o que tornou sua atuação mais realista, com uma conexão especial e bastante natural.

Mas vamos por partes. Não pretendo fazer nenhum tipo de resenha dos filmes em si, embora seja preciso citar passagens (sem necessária cronologia). A minha intenção é analisar a relação entre as personagens, seus pensamentos e reações, e a repercussão de seu amadurecimento com quem também é assumidamente apaixonado pelos filmes, assim com eu. Então, sim: haverá spoilers o tempo todo. Se isso não te incomoda, esteja à vontade para continuar lendo. Nesta primeira parte, vamos falar somente de Antes do Amanhecer, justamente por ele ser o mais importante

Antes do Amanhecer

Antes do Amanhecer se inicia com um casal brigando dentro de um trem, enquanto Celine tenta ler um livro. Desistindo, ela muda de lugar para tentar se concentrar melhor e senta-se perto de Jesse, que também lia. Curioso com o casal, ele começa a puxar assunto com ela e, em seguida, a convida para ir ao vagão-restaurante. A partir daí, pode-se dizer que o filme começa de verdade, pois mesmo sem saber o nome um do outro, os dois travam diálogos bastante filosóficos sobre assuntos variados, desde os mundanos e cotidianos até os mais existencialistas.

Antes do Amanhecer

Antes do Amanhecer (1995)

Quando o trem para em Viena, Jesse tem que descer, pois irá pegar um voo para retornar aos EUA, onde mora, mas Celine deve continuar a viagem até sua casa, em Paris. Numa súbita inspiração, ele a convence a ficar em Viena durante o tempo que tem até a manhã seguinte, quando o avião irá partir. Sem dinheiro para um hotel, eles passeiam pela cidade, conversando e se conhecendo a cada passo e cada palavra, até onde se pode conhecer um estranho encantador e trocar pareceres sobre as coisas da vida. A beleza do filme está exatamente nisso, na sinceridade e espontaneidade do diálogo entre dois estranhos que procuram se conhecer nas poucas horas que têm juntos.

No decorrer do filme, eles encontram indivíduos vivendo sua vida de maneira comum, mas que roubam a cena durante os minutos em que permanecem em foco: o casal brigando no trem; dois rapazes para quem pedem indicação de lugares para ir e eles os convidam para uma peça de teatro que parece não prometer muito; uma cigana excêntrica, que aparenta ser uma charlatã com seu papo sobre “poeira cósmica estelar”. Mas o mais intrigante mesmo é a “versão vienense de mendigo” que os aborda; ele lhes pede uma palavra para escrever um poema e se isso acrescentar algo na vida deles, eles lhe pagariam.

Jesse se insinua o tempo todo para Celine, quando ela lhe pergunta o que é um problema pra ele, de maneira genérica, e ele diz que ela é um problema; ou quando ela lhe conta sobre a primeira pessoa por quem sentiu tesão e ele participava de uma competição de natação no acampamento, e Jesse diz que é nadador (esse pequeno jogo continua em Antes do pôr-do-sol).

Uma das cenas mais fascinantes do filme é quando estão em uma loja de discos, e entram na cabine para ouvir Come here (Kath Bloom), então Jesse começa a olhar para Celine, como quem desejasse beijá-la naquele momento, e ela se mostra um tanto incomodada no início, mas no decorrer da cena ela também começa a analisá-lo com ar de quem se diverte e com curiosidade em desvendá-lo. Eles não dizem nenhuma palavra, mas flertam o tempo todo.

Um dos diálogos mais intrigantes entre eles, que terá uma repercussão interessante no último filme, é bem curto e fala sobre tecnologia:

Jesse: Sabe o que me deixa louco?
Celine: O quê?
Jesse: As pessoas falando de como a tecnologia é ótima, e como ela poupa tempo. Mas para que poupar tempo se ninguém o utiliza? Se na realidade isso é convertido em mais trabalho? Ninguém diz “com o tempo que poupei usando meu processador de textos, irei descansar num mosteiro zen”.
Celine: De qualquer forma, o tempo é tão abstrato.

Na hora em que se despendem, decidem por não trocar telefone ou endereço, combinando de se encontrar no mesmo local dali 6 meses Algumas perguntas ficam no ar: será que eles guardaram o poema do mendigo? Será que Jesse voltou para pagar o barman que lhe deu o vinho para “a maior noite da sua vida”? Eles fizeram sexo no parque? Após 6 meses eles se reencontram?
É justamente esta ambiguidade que cria o clímax deste primeiro filme, uma vez que não temos o tradicional conceito de final feliz tão presente no cinema, principalmente o dos anos 90. Antes do Amanhecer veio com a proposta de ruptura do gênero romântico, reproduzir exatamente o que acontece na vida real, sem diálogos fantasiosos ou idealização da perfeição que sabemos não existir.

Antes da Meia-noite

/ Para saber mais:

A ideia para o primeiro filme nasceu a partir de uma vivência de Linklater, quando passou uma noite andando pelas ruas da Filadélfia junto a uma moça chamada Amy Lehrhaupt, após conhecê-la em uma loja de brinquedos. Os dois nunca mais se viram, e o diretor produziu Antes do amanhecer como uma declaração de amor aberta à Amy, na esperança de que ela se identificasse com a história e fosse encontra-lo, mas ela havia morrido algumas semanas antes das filmagens começarem. Ele só soube da notícia quando um amigo de Amy enviou-lhe uma carta contando o ocorrido. Uma das primeiras cenas de Antes do pôr-do-sol, a que Celine entra na livraria em que Jesse está encerrando a turnê de divulgação de seu livro e ele a vê, e fica um pouco desnorteado, é a idealização de Linklater do que gostaria que Amy tivesse feito.

Pela Europa, nos passos de uma trilogia

Os roteiros atemporais para quem quiser seguir os passos do casal.

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Escritora de minuto por paixão, amor e loucura. Em sua mochila sempre carrega um livro, caderno e caneta. Blogueira desde cedo, atualmente cursa Jornalismo, é colunista no blog literário Vá ler um livro, da MTV, e idealizadora do projeto O Folhetim, também voltado à literatura.

  • Danilo Novais

    Eu amo a trilogia!

    • Grazy Dos Santos

      É maravilhosa! Mas sou suspeita a falar, né ahaha

  • Lucas Soares

    incrível. eu havia postergado o assistir à trilogia devido a motivos não explicáveis da vida. ela foi indicada a mim numa aula de cultura contemporânea, nos idos de 2008, quando eu ainda estava na faculdade. agora que assisti, nossa, estou completamente sem palavras. de verdade. que trilogia do caralho! incrível e eu não mudaria uma só palavra ou frase ou sequência. foda demais! ainda hei de encontrar uma forma de fazer uma homenagem ao diretor, porque ele me deixou estupefato, como há tanto não me sentia ao assistir a um filme. foda!

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