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26 de novembro de 2013

Abandono: das séries que acompanhamos às coisas que gostamos

Mudanças são o que nos mantêm sendo nós mesmos. E é por isso, talvez, que abandonamos tantas coisas que gostamos, como nossas séries preferidas. Ainda sobre prioridades e liberdade de escolha.

Numa conversa recente com alguns amigos, identifiquei que sofro de um mal que posteriormente descobri não ser exclusividade minha. Já abandonei inúmeras séries durante a vida e poucas foram as que tive motivo. De imediato, aparentemente não há razões concretas para tal fato. Talvez o frenesi do dia a dia moderno faça com que as coisas ganhem importância em um dia e igual desapego no outro. Ou talvez este mesmo sentimento faça com que optemos dentre as milhares de opções ao nosso alcance, preferindo esta àquela ou preterindo uma por outra. É difícil explicar.

Por mais que pareça um assunto de pouca importância, deixei-me levar pela busca de explicação. Sei que tal tentativa não é grande causa vital, nem me fará descobrir uma grande verdade da vida, mas é um tema interessante. Sem motivos, deixei de acompanhar a bela Pushing Daisies (e muito antes de ser cancelada). Igualmente, parei de conviver com Walter White e companhia, cessando tal vivência no quarto episódio da quarta temporada da produção. Mais uma vez: sem motivo algum. Achava fantástico cada episódio de Breaking Bad, deixando de acompanhar a série sem quase nem perceber.

No mesmo barco, entram também Dexter — a qual já fiquei sabendo que desanda, mas que ainda é uma das minhas favoritas, tendo eu parado no meio da quinta temporada — e Weeds (que sempre teve minha afeição e respeito, estando eu até hoje estacionado no terceiro episódio da sétima e última temporada). As últimas três produções citadas foram séries-objetos da minha monografia. Ou seja, meu nível de interesse e envolvimento com elas sempre foram grandes, mas pelo visto não o suficiente para não deixá-las ao léu.

Breaking Bad e Weeds

Breaking Bad / Weeds

Uma tentativa de entendimento através da filosofia e psicologia

Das séries que abandonamos

Há o que se falar, no campo filosófico, sobre arquitetura do abandono. O conceito de Eduardo Rocha é mais ligado ao fático, ao concreto, ao social, mas é possível fazer uma correlação com o que está sendo exposto aqui pelo viés da arte. Observa-se que as séries adentram o universo da nossa psique e torna-se um objeto-virtual de apreço, de carinho. Interagimos com esse objeto: sorrimos, choramos, formamos laços. Mas, de vez em quando, por mais forte que tais laços sejam, acontece uma quebra de vínculo. E, por mais que talvez não seja possível admitir, os nossos interesses não se identificam mais com aquele conteúdo ali.

Comunga desta ideia a publicitária e editora do blog Apaixonados por Séries Cristal Bittencourt, que acredita que o fato de deixarmos uma série de lado tem muito a ver com uma questão básica de identificação. Como ela afirma, por mais que as produções sejam ótimas, conseguimos visualizar que não estão de acordo com nosso interesse. E assim como a jornalista Jéssica Souza, fã de séries e também adepta do mal que trata este artigo, Cristal também expressa a questão da ansiedade. Jéssica afirma que quando o tempo não é suficiente para acompanhar as séries que gosta, ela lida com a ansiedade deixando para fazer o que no mundo televisivo é conhecido como “maratona”, assistir aos episódios acumulados ou à uma temporada inteira numa sentada.

Como esse tipo de produção é uma forte forma de expressão artística e cultural de nossa realidade, acabamos por enxergar nelas um meio de vivenciar outras formas de vida. É uma das significâncias da arte, por mais que haja divergência neste ponto. Sendo um pouco mais incisivo e denso, resolvi buscar apoio no ramo da psicologia. Ao pensar que deixamos de lado uma série porque nossos interesses mudaram, por exemplo, encontramos apoio no que o psicoterapeuta norte-americano Carl Rogers defende, utilizando-se dos entendimentos do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard. Mudanças são o que nos mantêm sendo nós mesmos. Para Rogers, o indivíduo atinge o nível máximo de ser o que se é quando tem a liberdade de escolha. E só a experimentação advinda da experiência é que torna possível tudo o que temos disponível em nossa consciência. Portanto, o processo para se entender o porquê de colocarmos uma série em pausa é por vezes longo.

Tentando entender pela simplicidade

Prioridade foi ainda uma das formas que Jéssica definiu como causa dos abandonos. Ela, por exemplo, por conta da cobertura das manifestações que o país tem vivido e da última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, acabou deixando a série The Good Wife de lado. Por ter outras prioridades nesse momento, colocou a série em hiatus para cuidar de suas atribuições. E é uma opção extremamente consciente e galgada numa decisão simples.

Num primeiro momento, quando iniciei a reflexão acerca do tema, não queria acreditar que o tempo (ou a falta dele) fosse o principal meio de se abandonar uma série. Depois de muita conversa e leitura, acabei convencido de que, aliado ao conceito de prioridade, o tempo é sim o principal fator que nos leva a deixar de lado algumas destas produções. Encontramos um jeitinho aqui e outro ali, mas no final das contas as vinte e quatro horas preciosas do dia falam mais alto quando temos de organizá-las para executar tudo aquilo que é impreterível, como dormir. Incluindo aquela horinha extra sagrada de cada dia dedicada a um dos seriados que adoramos!

E você, quais séries já abandonou e depois não quis acreditar tamanho seu envolvimento quando voltou à assisti-la? E suas teorias para o abandono de coisas que gostamos, quais são?

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Goiano, casado, jornalista, apaixonado por cultura e concurseiro. Morou em Brasília, no Rio de Janeiro e atualmente mora em Goiânia. Gosta muito de debates, pois acredita que as discussões enriquecem a todos. Mais textos de Lucas no New Home.

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